“The Walking Dead”. Muito além do massacre de zumbis.

American comic book artist Tony Moore (left) a...The Walking Dead é uma série apocalíptica de HQ que surgiu em 2003 criada por Robert Kirkman e o desenhista Tony Moore nos Estados Unidos. Para quem ainda não conhece vale a pena. A série se popularizou e virou uma muito bem sucedida produção roliudiana em vários aspectos, com destaque aos efeitos especiais e de maquiagem e a fidelidade dada ao excelente enredo original dos quadrinhos.  Aqui em terras tupiniquins ela começou a ser recentemente distribuída pela FOX, dividida em 4 temporadas, das quais nós, aficionados, já desfrutamos duas. Enfim, resumindo para que desperte mais interesse àqueles que estão boiando:

O protagonista (xerife de uma pequena cidade) acorda de um coma e se depara com o hospital e a cidade vazia. Ele descobre que um surto – sabe-se lá do quê –infectou quase toda a população e as pessoas que morreram viraram zumbis, restando apenas poucos sobreviventes agora. Sem energia e sem telecomunicações o mundo vira um caos e qualquer barulho pode atrair uma população de zumbis que arrancam suas tripas a luz do dia. Em um dos episódios ele consegue encontrar sua família (mulher e filho) que estão junto de um grupo de pessoas buscando o apoio mútuo como fator de sobrevivência.

Os sobreviventes habitam agora o cenário depois do apocalipse, e que parece bem pior do que o juízo final cristão. Aliás, tal lugar é a inversão dos sonhos revolucionários. O “novo” é bem pior do que o antigo. A Nova Jerusalém dos cristãos (ou o comunismo) passa mais próxima da descrição do Inferno de Dante. Mas nem tudo mudou. A sociedade ainda tem classes. E são duas: os vivos e os mortos-vivos. Os vivos são a minoria nada privilegiada agora, mas a guerra (a luta de classes) continua. viaTempos Safados: The Walking Dead: uma perspectiva da vida após o fim do mundo.

Mas a discussão acerca de The Walking Dead vai muito além dos personagens marcantes, crânios dilacerados, tripas, moscas, restos se arrastando com fome de carne viva, um apocalipse digno da imaginação de renomados “viajantes”, tais como Bosh, Da Vinci, Calígula, Nero, Aleijadinho e outros perturbados (no bom sentido). Façamos uma analogia entre a ficção e a nossa “realidade”. A partir daqui estas duas se confundirão.

Quem são aqueles que por algum motivo permanecem sãos, tentando formar pequenos grupos, mandando bala pra baixo contra as falange do mal? E quem são os zumbis que, de forma absolutamente instintiva, se engalfinham por um pouco daquilo que é seu, um pouco de você?

Os zumbis são a grande massa, são mortos-vivos alienados. Não agem coletivamente, ao contrário, é cada um por si, devorando o que podem. Entre a minoria saudável existem aqueles que por um motivo ou outro está sozinho, tentando nadar contra a corrente. Alguns se unem pra tentar sobreviver, mas até entre eles há divisão. Claro, tirando a massa de alienados, cada humano inteligente é único, discordâncias causam conflitos. Por isso alguns poucos preferem continuar sozinho. Me sinto um deles.

O mundo da minoria sã é duríssimo, por vezes é o próprio inferno. A esperança é pouca para alguns e nenhuma para outros. Certos sobreviventes se fingem de zumbi e se misturam a eles, imitando-os, fazendo o que fazem, inclusive se cobrindo de vísceras para esconder que são humanos. Esta estratégia é muito utilizada, me consenti dela até pouco tempo. No momento estou procurando um lugar seguro para fugir dos mortos, mas se não encontrar, talvez me torne um deles de vez.

Na minha opinião, o dilema mais interessante da série paira sobre este ponto. Se você é um sobrevivente vai entender e se perguntar onde se encaixa neste paralelo entre trama e vida real.

1) Humano saudável vestido de zumbi. Age como eles e chafurda na carne podre, porém continua vivendo sem grandes questionamentos sobre a validade de fazê-lo. Por isso é um infeliz, mas vai se casar sem conhecer o amor e ter um emprego que pague as contas. Ah sim! E rezar pra que melhore.

The Christopher Walken Dead2) Sobrevivente Afiliado. Você não quer parecer zumbi e é foda viver sozinho neste mundo. Mas encontrou outros que pensam parecido e juntos se oferecem alguma segurança na hora de destruir algumas cabeças de zumbi. De vez em quando um te salva, você salva alguém, uns são mais fortes, outros mais inseguros. Então surgem conflitos, conveniências, coisa e tal e, de repente, se depara com alternativas. a)persiste em viver o inferno como um sobrevivente solitário; b) volta a imitar zumbi; c) desiste por aqui e se mata antes de ser estripado vivo.

Representantes dos solitários

 

3) Sobrevivente solitário. Por vezes o mais fraco entre os outros grupos, mas o mais poderoso quando se poe diante da necessidade de prosseguir. Quanto mais sobrevive sozinho, mais forte se torna. Para este existem duas opções. Vai depender da corrente que  assumir na jornada: a) Os Crentes. Estes vai pagar pra ver com alguma esperança em uma redenção. b) Os Descrentes. Estes podem de teimosia pagar pra ver sem garantia nenhuma do que vem depois, ou, acelerar o processo e cair fora deste mundo.

Moral da história é que no fundo, o que todos os grupos procuram é um lugar seguro. Mas a ironia é… se todos os sobreviventes forem para este lugar seguro, então, não mais existirá lugar seguro.

A série aborda vários temas como suicídio, Deus, o homem, e outras de maneira muito séria, inteligente e pertinente. Na verdade, pela ótima trama, o lance todo de zumbi só serve como plano de fundo para discussões diversas , aliás, um plano de fundo que só faz acrescentar elogios à The Walking Dead pelos efeitos especiais e maquiagem dos figurantes (zumbis) de primeira linha. As cenas são muito chocantes pela produção bem feita e pela horripilância dos fatos, principalmente baseados na podridão da carne morta e do manejo de cadáveres (atenção carnívoros, na minha opinião isto se aplica aos animais).

Por enquanto só o trailler da série em vídeo, talvez depois eu coloque episódios completos que tenho aqui.