Da (re)tribalização do homem. Um caminho para uma humanidade menos depressiva

Study for a caipira's head

Study for a caipira’s head (Photo credit: Wikipedia)

A onça é um animal emblemático. Há toda uma mitologia em torno dela em quase todas as regiões do Brasil. Um folclore rico presente principalmente no homem da terra, do caipira, caboclo, vaqueiro, pantaneiro. Também pudera. A história de nosso país tem pouco mais de 500 anos. No entanto, por aqui, essa relação entre o natural, o animal (onça) e o racional (homem) vem de muitos séculos antes, desde as sociedades indígenas. Por mais extenso que sejam os produtos psíquicos desta interação há um lugar de destaque que se caracteriza quase sempre (exceto no caso dos boçais caçadores) por uma imagem repleta de respeito entre onça e homem, bicho e gente.

O mundo natural me fascina. O problema, e o que muito me entristece enquanto ser-hurbano, é que tratamos até aqui de dois personagens em alto risco de extinção: a onça e o caipira. Assim como seu habitat, a floresta atlântica (tropical), que ocupava até menos de um século a maior parte do território brasileiro.  O Brasil mesmo era um país agrário até meados do século passado. Mas incorreu em assumir um certo lugar nesta nova desordem mundial. O progresso que nos levaria ao pretenso posto de país do futuro nos impõe um novo modo de vida. Novo para nós. Tio Sam, aconselhado por Ford, já reivindicara a patente do American Way of Life décadas antesE agora se “enquadrar” à um pensamento único parece ser um ato compulsório. Olhem para nossas famílias de agricultores, massacrados pelo modelo latifundiário que serve essencialmente à vorássia alimentar do velho-mundo burguês e, com suas sobras,  à nova classe média das colônias emergentes. “Tigres asiáticos”? Que tigres? Onde estão os tigres? Nos documentários sobre a vida natural. Seria então necessário que o caipira tivesse novas necessidades além de sua vidinha rural. Ele precisava agora de uma coisa muito maior. Precisava desejar. Desejar o que? Mercadoria. Aliás, nada mais oportuno que convence-lo disso lhe oferecendo um lindo tapete… de onça.

Gostaria de falar mais da onça. As onças-pintadas são solitárias e só buscam a companhia de um par durante a época de acasalamento. Cumprem seu papel animal e tchau. À nós, do alto de nosso especismo, seria mais digno abdicar da obrigação instintiva da reprodução antes de nos considerarmos mais inteligentes entre os seres. Em geral nascem, no interior de uma toca, dois filhotes – inicialmente com os olhos fechados. Ao final de duas semanas abrem os olhos e só depois de dois meses saem da toca. Quando atingem de 1,5 a 2 anos, separam-se da reprodutora, tornando-se sexualmente maduros e podendo se reproduzirem.

Assim é o mundo para um animal e até aqui não vejo motivos para mirar no exemplo do homem em detrimento da onça. Neste caso específico, como seria este filme da separação entre a Mãe e o filhote? Imagino que para alguns seja um processo natural, emancipatório, menos traumático. Já para outros, um rompimento mais duro. Se havia caça, graças a Mamãe. Se a sorte da sagaz caçadora não estivesse consigo e a caça não fosse farta era porque assim fez a Mamãe. Para a jovem onça, recém orfã da Mãe Protetora à quem culpar pelas caças mal sucedidas? Pelos dias de fome? Pelos dias de solidão sem nem um parceiro para acasalar? Assim é o homem absurdo desmamado de Deus. Por outro lado, descobre também que está livre. Agora é livre e só. Fazer o que com isso? Mas a onça é só um animal, não se questiona a respeito. Apenas vive um dia de cada vez. Exatamente o que a difere do homem. Para o homem, de que serve a liberdade repleta de solidão? O que fazer com estas dois valores que deve carregar àquele homem por quem buscou Diógenes com sua lanterna.

Este artigo foi inspirado em um questionamento feito por Munhoz em outro post. Pois bem, acho que a partir daqui a história da onça vai fazer mais sentido.

Realmente parece haver um salto entre o questionamento sobre a existência ou não de um Deus e impulso de renuncia de uma pobre alma. Parece.

A primeira reação daquele que se vê órfão é talvez perder a esperança, a priori em uma justiça redentora. Depois ele vislumbra a possibilidade de um mundo sem ordem, sem porquês, absurdo. Daí você pode me perguntar se esta revolta suicida pode refletir uma vontade intrínseca de ter Deus. De certa forma sim. Nem que seja para servir de bode expiatório. Para personificar o carrasco, o culpado.

O pensamento místico nos familiarizou com esses preconceitos. São tão legítima quanto, afinal, qualquer outra atitude de espírito“.

É dessa reflexão que deve surgir a questão:

“Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. […] Raramente alguém se suicida por reflexão (embora a hipótese não se exclua). O que desencadeia a crise é quase sempre incontrolável.”

Camus talvez tenha sido o filósofo que foi mais ao ponto:

“O suicídio sempre foi tratado somente como um fenômeno social. Ao invés disso, aqui se trata, para começar, da relação entre o pensamento individual e o suicídio. […] Começar a pensar é começar a ser minado. […] É preciso seguir e compreender esse jogo mortal que arrasta a lucidez em face da existência à evasão para fora da luz.”

Porém, tanto Camus, como em Nietzsche e em outros, acabam admitindo a segunda opção do homem absurdo. Após o primeiro impacto da orfandade, a constatação da absurdidade, vem um sentimento de liberdade, aliado a uma noção de responsabilidade que nos convence que talvez, a melhor saída seja assumir um papel rebelde. Ao invés de negar o absurdo, aceitá-lo e confrontá-lo, até o fim, como uma criança pirracenta. Mas até quando a rebeldia apascenta? Até quando a veia adolescente ainda vai pulsar?

Fechando então este círculo que começou com o folclore da onça, do caipira e suas passagens a ser-hurbano, posto um vídeo que tem a ver com uma postura filosófica que adotei. O homem moderno deve retornar ao caipira, se permitir aventuras com o ser mitológico da onça. O que digo não é algum tipo de alegoria, ao contrário, deve ser bem mais radical. Devemos matar o urbano. Em outro post eu disse querer explodir a humanidade. Sendo menos literal gostaria de esclarecer sobre isto. Devemos fazer uma busca diária a um retorno ao rural, em uma primeira fase. Mas ainda teríamos muitos sistemas nos controlando. Os rompimentos seguintes devem atingir diretamente as instituições Estado e território, para que depois possamos (re)ultrapassá-la, nos voltando a sociedades menores, algo parecido com as sociedades indígenas pré-descobrimento. É bicho, não é ideia de anarco-punk meia sola. Tem anarquismo sim, niilismo, anti-socialismo, simplismo, zaratustrismo, cinismo… “Você ta na pista” como diria Raul. Eu chamo essa teoria de Retribalização do homem.

Sobre o vídeo é grande, mas a fala de Maria Rita Kehl vai até 50min e o tema é Aceleração e Depressão. É uma teoria que já tinha comigo sobre um estado depressivo natural da sociedade moderna, mas aqui está exposto maravilhosamente bem.

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