O Estágio Zaratustra. Trancoso-Rio dos Frades

Dia 01/07, amanheço em Trancoso depois de uma noite muito bem dormida se considerar que meu colchão era um pedaço fino de material sintético. O roteiro era passar a manhã preparando minha partida a pé para Itaporanga pela praia. Não me preocupava por não conhecer o caminho na prática, afinal já consultara de véspera o Google Terra e a coisa não parecia muito difícil já que estaria orientado sempre pelo barulho do mar a minha esquerda. Além disso, aquela paisagem litorânea não compunha exatamente uma exuberante mata atlântica. Então o mapa que tinha apenas na minha cabeça se assemelhava ao seguinte:

 Bom, como sempre, as coisas não são tão fáceis quanto desejamos que sejam. Detalhes virão mais tarde. Por agora, vamos nos ater à uma prioridade cabal e comum à todas as espécies, o alimento. Observando a vida animal percebemos que sua natureza é muito simples. Se resume em procurar comida ao mesmo tempo em que ele mesmo não se torne comida de outro. No intervalo em que não se ocupam disto podem ser encontrados dando vazão ao instinto animalesco de procurar um parceiro para procriação. Com uma proposta e um orçamento igualmente animal pude assim me reaproximar de minhas necessidades verdadeiras e resgatar o homem ligeiramente primitivo que ainda acredito carregar. E como um animal, logo ao acordar, tratava de perambular a procura de meu suprimento alimentar. É claro que não tinha a pretensão de me transformar de um ser-hurbano a um homem primata simplesmente pela vontade, da noite para o dia. Não é que eu gritasse “Gerônimo!!!” e um raio caísse do céu reduzindo minhas roupas a uma tanga de couro, me armando de uma lança de bambu com a qual cassasse como o maior dos bravos, mas minhas refeições deveriam ser as mais básicas e grátis possíveis. O cardápio não variaria muito. Um carboidrato associado a alguma proteína, normalmente pão com ovo, pão com queijo, tapioca com leite em pó. Daí cozinhava uma lentilha sempre que dava, comprava, colhia ou catava frutas, paçoca de troco, coisa e tal. Ainda havia a cota diária de barras de cereal e proteína e um pouco dinheiro que sobrava pra tentar fazer uma refeição mais substancial que não ultrapassasse R5,00 (difícil). Ou seja, grande parte do meu dia era dedicado a procurar comida.

Me sentia o verdadeiro Bear Grylls. Infelizmente não foi bem assimMinha intenção era iniciar naquele dia a união entre duas práticas: o deslocamento até outras terras mais longínquas esperando encontrar pelo caminho relativamente selvagem algumas poucas fontes de alimento. Ora, sou um ser onívoro e este fator de oportunismo me permitiria encontrar frutas pelo caminho, caranguejos, pequenos peixes presos nos corais, enfim, me sentia o verdadeiro Bear Grylls. Infelizmente não foi bem assim.

No início da tarde encontrei um restaurante self-service mais humilde onde montei um prato comedido mas substancioso. Coloquei apenas coisas que não pesam muito no prato, mas caprichei no feijão. Satisfeito, fui conhecer a praia e fazer a digestão antes da caminhada. Encontrei uma castanheira à alguns metros ao sul de frente pro mar onde a maré não chegava, perfeita para acampar de quebradinha e zarpar antes que alguém perceba. A ansiedade da partida era grande, queria logo colocar o pé na estrada e no meio da tarde levantei acampamento e fui. Cedo demais para quem acabara de almoçar em restaurante baiano e tarde demais para quem pretendia atravessar a barra do rio dos Frades antes de anoitecer. Mais tarde esta pressa se revelaria meus primeiros enganos da jornada.

Já nos primeiros quilômetros me desviei da estradinha a beira mar e caí em uma praia mais afastada mas cheia de nativo curtindo a tarde. Parei pra me informar com uns caras jogando baralho e quando contei meu objetivo eles não se mostraram muito otimista quanto ao cumprimento da missão. Quando olharam para aquele branquelo recém-chegado querendo tirar onda de aventureiro a primeira reação dos caras foi de explícita chacota. “Rapáis! Não é assim, não. Você não chega lá hoje”, disse um deles. Me decepcionei um pouco, mas ainda acreditava em mim, além do mais eu estava equipado para contratempos, barraca, alguma comida para preparar e água. Insisti. Sem tirar os olhos do jogo das cartas outro dispara: “À cavalo são 4 horas, você não conhece o caminho. Tem que atravessar o Frades na maré baixa. Desiste.” Um outro faz terror – “Outro dia um tubarão comeu uma mula lá na barra. Vai arriscar?” – Caralho! Tudo que eu precisava ouvir. Ou eu estava deveras subestimando as dificuldades ou aqueles homens estavam subestimando minha capacidade. Resolvi descobrir a resposta e sobre risos desdenhosos me virei e prossegui.

E tome areiãoEstava com um certo gás, otimista, motivado. Caminhar pela praia tem a vantagem de ser terreno plano, sem subidas e descidas, porém não é tão fácil assim. O piso fofo pode dificultar muito, mas se souber se servir da maré vazante, a areia próxima a arrebentação fica como uma pista. Claro que consultei as marés no período antes da viagem no site da marinha. No entanto sabia que deveria voltar à uma estrada uns 100m pra dentro do continente que era um areião em linha reta, o que me economizaria passos em detrimento do caminho praiano recortado. E assim o fiz. Era um caminho até agradável por vegetação de grande porte entre mim e a praia. Mesmo não vendo o mar, ouvia suas batidas ritmadas a esquerda, ora mais próxima, ora mais ao longe. O problema era que o sol se punha rapidamente e nada de rio dos Frades. Este era minha referência pois imaginava que deveria atravessá-lo em algum momento obrigatoriamente. Outro engano. A estrada para Itaporanga pega um caminho a sudoeste em um trecho bem anterior. Sem perceber, continuei reto. Me vi em uma situação onde não conseguiria cortar a mata no peito se quisesse retornar a praia e estava em um local pouco propício para montar acampamento, andando por uma restinga densa, repleta de animais rastejantes. Não podia vê-los propriamente ditos, mas os ouvia entre os arbustos e imaginava que ali era um local e horário preferido para cobras saírem à caça. Apertei o passo e inciei uma corrida contra a chegada da noite. E tome areião, e nada de rio dos Frades.

Já estava começando a sondar locais onde eu poderia voltar e colher lenha se necessário, quando de repente, atravessando uma pequena duna, me deparei com um oásis de coqueiros. Parece estória enfeitada, mas juro que não foi. Do alto da duna pude ver um campo de areia plano, cercado de coqueiros e castanheiras. A esquerda o encontro do mar com o rio Frades onde atracavam pequenas embarcações e ao sul, no fim do plano, seu leito calmo. Já era iniciozinho da noite, estava aquele claro, meio escuro, meia luz, a lua já havia dado as caras. Tudo lindo, mas a estória do tubarão na barra não me encorajou nem um pouco a passar para o outro lado naquele dia. Depois de 10km de paisagens desabitadas, mal pude acreditar que naquele lugar tão isolado haviam casas. Dois barracos de madeira, precariamente construídos. O primeiro que vi estava bem localizado num campo de areia e coqueiros. Chamei, não havia ninguém. Andei até o segundo, às margens do rio. Não parecia haver ninguém. Caramba! Isso poderia ser bom ou ruim. Poderia acampar ali e acordar no outro dia sem ser molestado, o que seria bom, ou, poderia acampar e tarde da noite, aparecer sabe-se lá quem que moraria ali e no melhor das hipóteses acharia estranho chegar e do nada ver uma barraca armada em seu quintal. Levantei acampamento na frente da primeira casa e fui colher lenha para a fogueira. A esta altura tinha água suficiente apenas para cozinhar lentilha, fazer leite, e beber o mínimo. Poderia também ferver a água do rio se a sede ficasse crítica. Agilizei tudo e, cansado pra caralho, dei uma deitada na barraca para descansar um pouco antes de cozinhar. Quase dormindo, escuto um “Aoooow”. Abri a barraca e tinha um jovem senhor sentando num toco perto dali. Eu disse:

– Opa. To invadindo seu espaço aqui – contei toda a saga até ali.

– Te vi na beira. Depois você voltou e eu vim aqui ver se era gente esquisita. Essa é a casa de um amigo. Ele saiu pra pescar. Eu moro na da frente. Mas pode ficar. Ele é gente boa.

– Sou SamWell de Belo Horizonte. Qual seu nome?

– Marquinhos (se não me engano). Me chamam de “Pito”. Minha mulher foi pra BH. Ela estava injuriada de morar aqui, sem energia elétrica, vivendo assim. Uma amiga dela levou pra trabalhar lá. Acho que ela não volta.

– Pois eu to pensando em fazer o contrário. Sair de lá e procurar algum lugar pra viver mais próximo disto aqui.

Cozinha dos anfitriões

Muito solicitamente ele me levou para o “fogãozinho” deles e já foi acendendo a lenha arrumada entre dois tijolos para que eu pudesse preparar minha janta. Lentilha demora, conversamos fiado um pouco, ele saiu pra pescar não sei o que, aproveitando a maré. Continuei e enquanto aguardei a refeição noturna ficar pronta meu corpo pode esfriar da caminhada e dar lugar a uma tremenda dor de barriga. Que era isso? Cara, doía que pareciam ter dado um nó no meu intestino. Não consegui comer. Deitei e não consegui dormir. Fiquei imaginando o que havia causado aquilo. Imagino que seja a junção fatal de tempero baiano com caminhada antes de uma digestão bem feita. Não teve jeito. Tive que forçar o “hugo”. Vomitei uma, melhorou um pouco. Vomitei outra, acho que resolveu. Fui deitar de novo. Ufa! Melhorou. Dormi um pouco e acordei com uma sede incrível. Costas de camelo vazio. Tentei dormir mas a sede era tamanha, que só conseguia pensar no suco natural de maracujá que havia deixado na geladeira em BH. Levantei, peguei a lanterna e fui procurar coco no chão. Descobri que os stacks da Bivak são ótimos instrumentos para abrir a iguaria tropical, bastava perfurá-lo. O lance era encontrar coco com água boa. Na verdade, naquele momento bastaria ter água. Não obtive sucesso. Estava literalmente desesperado de sede, pensei em ir no rio e pegar água, mas ali, do lado da casa, tinha uns tambores plásticos com água. Investiguei alguns deles e não parecia muito animadora a qualidade da água. Um tambor azul continha uma água que pela aparência tive certeza ser água de chuva. Era totalmente incolor, não havia cheiro. Provei, gosto de água boa. Iluminei com a lanterna e, apesar de vários insetos voadores que tiveram a má sorte de se lançarem no tambor, não pude notar larvas ou coisas vivas nadando. Não tive dúvidas e me lembrei dos episódios de  A Prova de Tudo (Man vs. Wild). Peguei a água numa panela, a meia que havia usado no trajeto, coloquei-a entre minha boca e a borda da vasilha e bebi. Bebi, bebi e bebi. Que água deliciosa. Néctar dos Deuses. Pude assim dormir e me preparar para o próximo capítulo.

(Fonte das fotos http://www.trancosobrasil.com.br)

CRASS “Não há autoridade a não ser você mesmo” – Anarquia além do discurso punk-meia-sola

“E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo[…]”

… então, CRASS é um modelo de coerência entre discurso e ação. Não se trata de uma banda, mas de uma ideologia que se tornou maior do que sua música. Este post não trata de punks pregando o anarquismo, mas sim de anarquistas meramente punks.

Crass logo

Crass logo (Photo credit: Leo Reynolds)

Venho neste blog tentando traçar uma linha filosófica ao mesmo tempo em que a construo como meus próprios ideais. Até aqui me entendo como um cinico-anarcoindividualista-agnóstico. Sequer gosto de punk, nem enquanto cena musical, nem enquanto movimento, menos ainda me identifico e/ou acredito na juventude que assim se declara. Afinal, onde estão os Titãs dos 80’s? Por isso insisto em separar punk e anarquismo. Este ultimo surgiu muito antes, na Antiga Grécia, vestida de coerência na figura de Diógenes de Sinope.

Ainda sou um pássaro cativo em uma gaiola aberta. Sei que posso sair, mas ainda não devo. Segue então o documentário sobre pessoas que vivenciaram e vivenciam sua filosofia de vida. Me fez pensar que se eu fosse o messias retornado, não pregaria o AMOR incondicional ao próximo. É utopia. Não é da natureza humana. O primeiro mandamento deveria tratar de RESPEITO. O respeito é mais real, mais tangível e mais redentor que o amor. Sendo assim… fiquem com o vídeo, ou se preferir ter gravado (recomendado), pode também baixar o torrent.

Título original : There is no authority but yourself.
Duração : 64 minutos
Ano da produção : 2006
Direção,câmera e edição : Alexander Oey.
Legenda : Português

Apelando para o CVV. A primeira vez a gente nunca esquece.

Navegando por esta rede imensa, me deparei com o seguinte texto. Muito legal! Há muito já tinha a vontade de iniciar uma relação com o CVV e compartilho agora minha primeira vez. Confesso que não achei nada produtivo, mas que quiser tentar é só acessar: http://www.cvv.org.br/ Coloquei numa categoria separada pois pretendo dar seguimento a esta relação.

O suicida, o louco no supermercado e um poema repetido.

de http://niikwon.blogspot.com.br

– CVV. Centro de Valorização da Vida. Em que posso ajudá-lo?
– Não sei. Nem sou suicida. Nem sei por que coloquei o revolver na cama. Eu liguei…, eu liguei…, porque queria fazer o curso do CVV.
– Às três da manhã?
– Não é que…, é… to triste pra caralho, aí lembrei do CVV. Acho que isso é quase um trote. (Se eu fosse você, eu diria…).
– Pelo que entendi você está, às três da manhã, com um revolver na cama, passando um trote para o CVV?

Mas não dará tempo.

Wellington Cruvinel
Enviado por Wellington Cruvinel em 05/01/2011
Código do texto: T2710703

Agora vamos ao fatídigo diálogo da noite:

Octávio CVV CVV Boa noite.

pilulamarela: oi, boa noite. eh minha primeira vez aqui. não sei bem por onde começar

Octávio CVV Fique à vontade. Estamos aqui para te ouvir.

pilulamarela: é q tenho uma visão vazia da vida. as vezes fico tentando ver razoes pra prosseguir vivendo

Octávio CVV Digamos que não consegue ver o sentido da própria vida.

pilulamarela: sim, talvez você possa me ajudar a ter uma boa razão ao menos. está disposto?

Octávio CVV Sim, vamos lá…vamos conversar.

pilulamarela: já passou por isso?

Octávio CVV Bom….todos temos nossos altos e baixos, o que você acha?

pilulamarela: sinto q meus altos já passaram, o auge, daqui pra frente é um futuro meio melancólico

Octávio CVV Certo…. tem alguma coisa te incomodando, quer me contar?

pilulamarela: nada em especial, digo… nenhuma decepção amorosa, culpa ou coisa assim. bem… como se o sentido da vida não fosse algo especial, mais que isso, essencial.

Octávio CVV Sei…nada de concreto. Mas este vazio está latente.

pilulamarela: sim, é algo concreto sim, filosófico diria, a ponto de pensar em suicídio quase diariamente, alias, já o planejei como plano B.

Octávio CVV Então esta falta de sentido, de ânimo tem levado você a querer acabar com sua vida?

pilulamarela: sim, penso nisso de maneira filosófica, não neurótica. tem sido forte.

Octávio CVV Como é para você notar esse desejo de suicídio aumentar?

pilulamarela: é estranho talvez por um instinto de preservação da vida e uma cultura negativa sobre o tema, mas me parece algo racional frente a desesperança

Octávio CVV Ou seja, por um lado você acredita ser o suicídio a melhor alternativa.

pilulamarela: uma alternativa bastante aceitável no meu caso. É bem pessoal. você… consegue me convencer q viver e a melhor alternativa?

Octávio CVV Entendo que a ideia de suicídio cresça em você à medida que não vê motivação para viver, aliado ao fato de vê-lo como uma saída possível.

pilulamarela: hehehe está me apoiando na ideia? rs. interessante

Octávio CVV Você conclui de nossa conversa que o estou apoiando? Estamos aqui para te ouvir. Esse é o nosso trabalho.

pilulamarela: vocês não tentam convencer q viver é melhor?

Octávio CVV E você acha que deveríamos? O que realmente acha que quer?

pilulamarela: acho q não deveriam. você ta certo

Octávio CVV Para nós do CVV, o importante é e sempre será o que você acha, o que você nos tem a dizer.

pilulamarela: isso não é uma critica, só quero entender melhor… ouvindo, qual é o objetivo? É um lance de psicanálise?

Octávio CVV Veja bem, estamos aqui ao seu lado, sempre que nos procurar, independente do que tiver para falar. Aqui você não será julgado.

pilulamarela: mas em que você acha q isso ajuda um suicida em potencial?

Octávio CVV Eu é que lhe pergunto. Acha que estamos te ajudando? Creio poder responder melhor que nós.

pilulamarela não. pois me ouvindo não me convenceu de que viver é melhor que morrer

Octávio CVV Ah, certo…compreendi sua opinião. Entrou aqui com o objetivo de que alguém lhe fizesse desistir do suicídio?

pilulamarela: na verdade não. mas esperava sim ouvir argumentos contrários ao suicídio. me enganei em entrar aqui?

Octávio CVV Você sempre será bem vindo, pode ter certeza! Nós o valorizaremos sempre.

pilulamarela: tudo bem que aí fora ninguém está preocupado em ouvir… mas não me sinto mais valorizado por você estar aí me fazendo isso, afinal, você pode muito bem estar me achando um lunático, chato de galocha

Octávio CVV Entrar aqui e não ter ouvido o que queria, não se sentir mais valorizado, te decepciona?

pilulamarela: não me sentir valorizado me decepciona muito. A você não? não ser valorizado é um dos motivos de muitos não se encaixarem neste mundo

Octávio CVV Não se sentir valorizado pelos outros, você quer dizer? Ou por si próprio?

pilulamarela: pelos outros, mas não os culpo. eu realmente sou bem inútil. admito minha derrota. e isso até me fortalece. pior é ser um looser iludido

Octávio CVV Então embora sinta que as pessoas não lhe dão importância, pelo que me conta você mesmo não se acha importante, é isso?

pilulamarela: sim. poucas pessoas são importantes. a grande maioria só faz peso na Terra, inclusive eu. to tentando mudar. rs

Octávio CVV Certo… Está tentando mudar?

pilulamarela: É. Ser um inútil diferente,menos nocivo, ao estilo dos cínicos. Saca cinismo, Diógenes, etc?

Octávio CVV Então está tentando mudar…a situação não lhe agrada e quer lutar?

pilulamarela: aí é q está. não sei se quero lutar. voltamos a estaca zero, rs. vale a pena lutar? eu te pergunto;

Octávio CVV você acha que vale?

pilulamarela: perguntei primeiro

Octávio CVV Aqui é o seu espaço. Percebo que busca muito minha opinião. O que pretende?

pilulamarela: mas o que realmente importa pra mim agora é saber se o que eu acho faz sentido pra alguém, eu já falo muito sozinho

Octávio CVV Busca respostas para o sentido da vida, não?

pilulamarela: sim. tá sabendo de algo que eu não sei? conta aí.

Octávio CVV Respondendo ao seu anseio de saber se o que você acha faz sentido para alguém: aqui no CVV você sempre fará sentido para nós, sempre será importante. Afinal é por isso que estamos aqui.

pilulamarela: veja se isso faz sentido: “De que adianta plantar bigorna segunda a noite, se quarta-feira rinocerontes passam pra dançar tango na sala sem pé nem cabeça”

Octávio CVV O que esta frase representa para você?

pilulamarela: não vejo sentido algum nela. Você vê?

Octávio CVV Parece que não há.

pilulamarela: a ha!!!! você disse: “aqui no CVV você sempre fará sentido para nós. Afinal é por isso que estamos aqui.” tá gravado, rs

Octávio CVV rs. Tenho certeza que entendeu o que disse.

pilulamarela: hahaha acho q tá bom né? posso voltar?

Octávio CVV Claro, sempre! Olha, foi um prazer falar com você. Sinceramente. Volte sempre que quiser. Torço por você.

pilulamarela: Ainda penso em me matar, mas não vai ser por agora. eu passo para avisar

Octávio CVV Certo…como já disse nós estaremos aqui para lhe ouvir.

pilulamarela: t+

Octávio CVV Até! Tenha uma ótima noite! Um grande abraço e até breve!

 

Gostei do “até breve!” em sua despedida. Oras… Conscientemente ou não (claro que sim), Octávio sabe que a alma moribunda do suicida irá voltar a contar com este cidadão praticamente anônimo.  Não porque a morte é uma mulher sedutora, madura, redentora, mas porque é assustadoramente enigmática. Em sua sabedoria, o ouvinte do outro lado do chat não queria, nem poderia me dar uma resposta que nem ele, nem eu em minha tentativa vil de fazer humor poderíamos responder àquela ora sobre os mistérios da (auto) pena capital.

Contudo, não acredito que o CVV seja o lugar do suicida racional. Talvez o dos mais histéricos, não o meu.

Diógenes. O maior dos cínicos.

Atenção, desavisados! O título é um grande elogio a um cara que merece muito respeito. Profundo em suas idéias, coerente, culto, convicto em seus ideais e por isso tudo se tornou o mais influente… mendigo da história. Sim, estou falando de Diógenes de Sinope.

Diógenes foi discípulo de um carinha aí, um tal de Antístenes que andava muito com Sócrates. Eles debatiam muito a corrente filosófica do cinismo que pregava essencialmente o desapego aos bens materiais e externos. Ah tah! Então eu vou deixar tudo que tenho, casa, família, “amigos”, amores, não vou comer ninguém, não vou ter um trabalho respeitado, coisa e tal? Foi exatamente o que fez Diógenes.

Para nós, meros vermes ditados pelos paradigmas ocidentais é muito fácil perguntar “por que eu faria isto?”. Isto porque somos compulsoriamente convencidos de que o único padrão de felicidade só pode ser concebido através do sucesso alcançado no competitivo sistema capitalista. Mas o fato é que pouquíssimos o alcançam, menos de 1% da população eu acho tem uma vida plena de amor em família, conforto financeiro e satisfação com o trabalho. Por que na realidade reunir tudo isso é muito difícil. Então temos que 99% da civilização ocidental tem algum nível de frustração que pode ir de um grau leve à um grau elevado. E por aí Freud pode decorrer muito melhor que eu.

Então se refletirmos sobre o cinismos podemos vislumbrar um grau de frustração menor simplesmente por ter ambições menores (na verdade o que se busca é a completa autossuficiência). Menor frustração é igual a maior grau de felicidade. Ou seja, almejar pouco para ter pouco o que perder. Algo assim. Posso me imaginar um ser até mais livre.

Bom, mas o que eu realmente gostaria de falar era deste cara cuja maior parte do que se sabe sobre sua vida é contada por anedotas reunidas naquele tempo. Por acreditar que a virtude era melhor revelada na ação e não na teoria, sua vida consistiu duma campanha incansável para desbancar as instituições e valores sociais do que ele via como uma sociedade corrupta (alguma afinidade?). Daí então Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas. Diz-se que teria vivido num grande barril no lugar de uma casa (É! Tipo o Chaves), e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto. O que a lanterna de Diógenes procurava? Alguém que carregasse consigo o ideal cínico da autossuficiência: uma vida que fosse natural e não dependesse das luxúrias da civilização.

Existem outras loucuras sobre este camarada excêntrico que postarei em outras ocasiões. Merece. Mas a conclusão de hoje é que, radicalismos a parte, podem existir categorias de mendigos e que podemos sim viver com menos, mais frugalmente. Esta se tornou minha filosofia, tornará-se-a meu modo de vida.

“as vezes eu acho que todo preto como eu/ só qué um terreno no mato só seu/ sem luxo, descalço, nadar no riacho/ sem fome, pegando as fruta no cacho/ aí truta, é o que eu acho, quero também, mas em São Paulo, Deus é uma nota de cem.” (Brown, Mano, Racionais MC’s – Vida Loka pt 2)

Em breve minhas idéias sobre como pretendo colocar meus ideais cínicos em prática.

“Os piores escravos são aqueles q estão constantemente servindo as paixões.”

Diógenes