Suicídio: o adeus para (in) transcendência – Albert Camus escreveu que o suicídio era um “problema filosófico verdadeiramente sério”. Conheça a visão de pensadores como Emil Cioran, Santo Tomás de Aquino e Jean-Jacques Rousseau sobre esse tema tão delicado e controverso

Artigo bem didático para quem deseja sair com honra.

Emil Cioran writer / Emil Cioran écrivain (Pas...

Emil Cioran writer / Emil Cioran écrivain (Pas terrible, flemme de recommencer) (Photo credit: Wikipedia)

Filosofia | Suicídio: o adeus para (in) transcendência – Albert Camus escreveu que o suicídio era um “problema filosófico verdadeiramente sério”. Conheça a visão de pensadores como Emil Cioran, Santo Tomás de Aquino e Jean-Jacques Rousseau sobre esse tema tão delicado e controverso.

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“Paranoid” – Um raro momento de lucidez lírica em Black Sabbath

Não estou aqui querendo fazer uma crítica à uma banda que, aliás, marcou meu melhores momentos de rebeldia. A banda, enquanto conjunto, é uma das melhores na playlist da minha existência e é inegável o fascínio que me causa o peso do som, underground, sombrio.

Fato é que, as letras nunca foram o forte do Black Sabbath. Soa meio forçadamente diabólico. A personalidade meio “sequelada” de Ozzy destoa da competência musical dos outros componentes. O contrabaixo marcado e pesado de Butler, a bateria hipnoticamente espancando os pratos de Bill Ward, e os clássicos rifes da guitarra de Tony Iommi em nada combinavam com o talento lírico de nosso vocalista (não discuto aqui seu talento enquanto vocalista, mas sim como letrista), que compunha coisas que mais parecem tiradas de um diálogo do Toninho do Diabo.

Bom… mas toda regra tem sua exceção: Na música Paranoid, Ozzy é simples, fala de seus sentimentos mais amargurados. Ozzy era um jovem amargurado, por isso, quando se propôs a falar disso de maneira descompromissada com o mal fez um ótimo trabalho. Tudo bem que isto foi até onde sua personalidade metaleira lhe permitiu. Aliás, não há no mundo ser mais fracassado e bobão que o metaleiro. Eu mesmo já fui um e posso dizer isto de camarote. Voltando as vacas frias, Paranoid é uma música que retrata de forma, mais ou menos superficial, uma alma vazia, sem esperança, sem nada. Camus dizia algo parecido com isso: Triste é quando alguém lhe pergunta “O que você tem?”, e você responde “Nada”, mas o pior mesmo é quando esta resposta é totalmente franca.

Isso não é coisa de metaleiro, mas vamos analisar alguns trechos

“Finished with my woman cuase she coldn’t help me with my mind”

Normal, homens e mulheres procuram preencher seus vazios no sexo oposto, melhor, no sexo (vai que não seja oposto).

“People think I’m insane because I’m frownig all the time”

Poisé. Minha mãe também pensa que meu caso é de psiquiatria. Minha avó, de exorcismo.

“All day long I think of things but nothing seems to satisfy
Think I’ll lose my mind if I don’t find something to pacify

Can you help me? Occupy my brain?”

Para um suicida em potencial, não encontrar algo pra acalmar pode tornar a expressão “perder a cabeça” (lose my mind) algo mais literal.

Uma pílula amarela ou LSD, cogumelo, ou mesmo uma trepadinha poderia ajudar a ocupar a mente. Nada mais que isso.

“I need someone to show me the things in life that I can’t find
I can’t see the things that make true happiness, I must be blind”

Não meu caro, você não está sozinho. Assim caminha a humanidade. Menos ainda estás cego, ao contrário, parece enxergar melhor que a maioria do ocidente.

“Make a joke and I will sigh and you will laugh and I will cry
Happiness I cannot feel like love to me is so unreal”

Imaginar a cena do primeiro verso me fez rir. Agora, amor? Felicidade? Isso é coisa de novela. E há muito parei de assistir.

“And so as you hear these words telling you now of my state
I tell you to enjoy life I wish I could but it’s too late”

Chave de ouro. Perfeito. Só posso concordar. Talvez as palavras mais lúcidas de Mr. Osbourne.

Abaixo segue o vídeo com legenda em português para os aficionados monolíngue.

Hoje eu acordei meio Nietzsche

German philosopher Friedrich Nietzsche posing ...

German philosopher Friedrich Nietzsche posing at the time of his writing ‘Also sprach Zarathustra’. Español: Retrato del filósofo alemán Friedrich Nietzsche, alrededor del tiempo en que escibió su obra ‘Así habló Zaratustra’. (Photo credit: Wikipedia)

Sabe quando a gente acorda naqueles dias? Não, porra! Eu não menstruo, tá me estranhando? To falando de quando você desperta naquelas manhã em que pensa quanto gostaria de ter acordado duro e gelado? Eu sei. Até eu acho isso meio forte, mas é frequente. Talvez eu tenha mesmo problemas? Ainda acho que não. Alguém sabe do que estou falando? Bom… fodas! Hoje eu acordei meio Nietzsche (num tem uma parada assim no facebook?). Então se não absorveu ainda o estado de espírito, veja o documentário da BBC – Humano, demasiado humano. Aí abaixo.

Como sou metido a besta, vou tentar resenhar. Vou pular a introdução e os dados técnicos acerca do documentário (vide rodapé youtube). Direto ás análises filosóficas, vamos separar alguns temas.

“Toda verdade na fé é infalível. Ela cumpre o que o crente espera encontrar nela. Porém, não oferece a mínima base para estabelecer uma verdade objetiva. Aqui, os caminhos dos homens se dividem. Se queres alcançar a paz e a felicidade, então crês. Se queres ser um discípulo da verdade, então busca.” (Carta à irmã Elizabeth)

Talvez o mais importante, a crise da fé, a revelação das dores do mundo moderno. Creio que a partir da revolução que Darwin trouxe em sua teoria, o homem pensante, o “homem absurdo” (Camus, Albert) se põe diante do maior dilema de sua vida: Manter Deus vivo em seu coraçãozinho, ou, matar a Deus e viver com a culpa e o vazio do mundo alógico, absurdo, demasiadamente humano sem Ele. Este embaraço, matar ou não, imagine a cena, ponha-se no lugar de pilatos. Está em suas mãos. Lavá-las ou não? Puxa o gatilho na nuca do Cristo (os romanos foram mais brutais em suas técnicas de execução) ou faz como “o primeiro vida loka da história, […](que) aos 45 do 2º, arrependido/salvo e perdoado. É, Dimas, o bandido”? Em certo trecho o documentário chega a questionar até que ponto, para Nietzsche, determinar a morte do divino o condenou a própria loucura, tamanha a dor que se impõe por isso.

A verdade de Sileno:  “A melhor coisa é não ter nascido. A segunda melhor é morrer logo.” (O Nascimento da Tragédia)

Sinto que não tive uma juventude dura como a de Nietzsche, o que talvez lhe servisse de prerrogativa para sentimentos que  nos são comuns, mas agora parece claro. Ele foi uma criança feliz, depois só desgraça. Garoto míope, se desenvolveu em um tipo esquisitão. Lutou na guerra como médico, onde pegou altas doenças. Parecia buscar algum alento para prosseguir em “Vontade de Poder” (o que me soa mais como “querer não é poder”). Nesta tentativa, buscava superar-se através do autoconhecimento, como terapia, meio que antecedendo algo que Freud se aprofundaria mais tarde. Vislumbrou em Zaratustra algo que hippies e punks pretenderam falidamente apoiar 100 anos depois: abandonar o sistema e viver na montanha.

No meu caso, o papel de Caifás vestiria melhor que a de Pilatos. Minha relação com o divino, antes mesmo de Darwin, já seria problemática por um simples motivo: incompatibilidade de filosofias. Ora, Cristo veio para salvar a humanidade. Eu, quero que ela se exploda. Vou mais longe, eu diria que se nossas filosofias, mais que incompatíveis são opostas, então, por coerência, além de romper com o cristianismo deveria também tornar-me anti-cristo. Mas uma coisa me difere. Minha vontade de poder ser Zaratustra me parece palpável ainda.

Suicídio. Covardia ou opção de vida?

Albert Camus, importante filósofo francês do seculo passado já dizia que “Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. ” A questão de que se existe ou não um sentido em viver pautará a vida de um homem a partir do momento em que este se deparar com o dilema mor da existência. Para aquele que refletir um pouco mais profundamente se encontrará em um a bifurcação onde uma estrada leva à esperança, à crença de que por mais tortos pareçam os caminhos, algo funciona para que haja justiça, conforto. A outra estrada leva simplesmente a um final, sem arco-iris, nem cachoeiras ou bosques, simplesmente ao fim. À morte onde tudo vira nada. Onde ficaram pelo caminho Hitler e Madre Tereza de Calcutá.

Na interseção entre a verdade e a crença está o conhecimento, que são as crenças justificadas. Porém, esta interseção abrange um espaço cujo conteúdo é desconhecido pela própria ciência, mas que podem ser tomadas como verdade, pois podemos experimenta-las. Sobre o que existe ali, nem você ou eu podemos afirmar, somente especular, mas prefiro fazê-lo a partir daquilo que já é conhecido, experimentado.

Diagrama do conhecimento

Excluindo-se a verdade e sua interseção, o que nos resta é nada mais do que crença, fé. Para Camus, assim como para Freud, para o homem racional o mais coerente é rebelar-se, engolir seco, respirar fundo, e seguir as agruras do caminho sem esperança de um final feliz. O homem que se dá conta disso é o “Homem Absurdo”¹. Sua vida parece não se encaixar nessa realidade e, por muitas vezes, suas pernas, sua mente, o convencem que não faz sentido prosseguir simplesmente por não estar indo a lugar nenhum. Freud e Camus não tinham a quem culpar por suas amarguras e decidiram tomar uma postura de rebelar-se e ver no que dava.

Ao contrário, outros autores como C.S. Lewis (veja documentário “Deus em Questão”) optaram pelo caminho da esperança, mesmo que no caso de Lewis, ao final de sua vida, Deus servira como uma válvula de escape, um culpado “sádico e odioso”, segundo suas próprias palavras, a quem pudesse praguejar seus rancores.

Minha relação com Deus sempre foi conturbada. Avó católica, me forçou aos dogmas. Enquanto ia ao catecismo e via meus amigos soltando pipa, ficava me imaginando com uma tesoura cortando todas aquelas linhas. Conscientemente a minha revolta era contra Deus, mas não atrevia a admitir para mim mesmo por medo do castigo divino. Como disse Freud “somente uma criança para deixar se levar por algumas velas e incensos.”

Contei esta pequena história pois, apesar de ir amadurecendo e aos poucos me distanciando     do divino, o meu rompimento completo com Deus e posteriormente com o sobrenatural, o metafisico, se deu de forma banal se comparando a outros, influentes ou não, que só o fizeram perante uma situação de completa ausência do divino, como em guerras, tragédias, holocaustos, genocídios, escravidão, fome, doença, apocalipse, etc. No meu caso foi uma puta revolta por uma multa por andar sem capacete. Mais tarde posso voltar com detalhes a esta passagem de minha vida. O fato é que o tal rompimento, a mim, por ser tão fútil a revolta, me leva a acreditar que o motivo é muito mais racional do que emocional.

Bom, falei tudo isso para chegar aos seguintes pontos:

A vida não é mais facil para quem segue o caminho da esperança. Apenas lhe oferece um apoio a mais, uma fé em dias melhores;

Para o homem absurdo, o caminho sem sentido é o mais cruel, porém mais coerente. Para ele também há duas opções: ficar ou prosseguir teimosamente.

Por isso, não julgue um suicida de covarde. É apenas uma posição assumida, muito lógica até. Este pensamento começou em mim após a notícia de que uma mulher conhecida havia se enforcado. Surpreendentemente minha reação foi de admiração.

Veja este vídeo que segue sobre o tema. A médica que discursa sobre o tema, alem de bem gatinha parece ter propriedade no que fala.

nota1 Leia O Mito de Síssifo – Albert Camus; To mandando o link do livro na net mas comprem o de bolso, é baratinho.

ALBERT CAMUS EM PORTUGUÊS – PÁGINA DE DIVULGAÇÃO E ESTUDO DA OBRA DO ESCRITOR E FILÓSOFO ARGELINO ALBERT CAMUS.