CRASS “Não há autoridade a não ser você mesmo” – Anarquia além do discurso punk-meia-sola

“E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo[…]”

… então, CRASS é um modelo de coerência entre discurso e ação. Não se trata de uma banda, mas de uma ideologia que se tornou maior do que sua música. Este post não trata de punks pregando o anarquismo, mas sim de anarquistas meramente punks.

Crass logo

Crass logo (Photo credit: Leo Reynolds)

Venho neste blog tentando traçar uma linha filosófica ao mesmo tempo em que a construo como meus próprios ideais. Até aqui me entendo como um cinico-anarcoindividualista-agnóstico. Sequer gosto de punk, nem enquanto cena musical, nem enquanto movimento, menos ainda me identifico e/ou acredito na juventude que assim se declara. Afinal, onde estão os Titãs dos 80’s? Por isso insisto em separar punk e anarquismo. Este ultimo surgiu muito antes, na Antiga Grécia, vestida de coerência na figura de Diógenes de Sinope.

Ainda sou um pássaro cativo em uma gaiola aberta. Sei que posso sair, mas ainda não devo. Segue então o documentário sobre pessoas que vivenciaram e vivenciam sua filosofia de vida. Me fez pensar que se eu fosse o messias retornado, não pregaria o AMOR incondicional ao próximo. É utopia. Não é da natureza humana. O primeiro mandamento deveria tratar de RESPEITO. O respeito é mais real, mais tangível e mais redentor que o amor. Sendo assim… fiquem com o vídeo, ou se preferir ter gravado (recomendado), pode também baixar o torrent.

Título original : There is no authority but yourself.
Duração : 64 minutos
Ano da produção : 2006
Direção,câmera e edição : Alexander Oey.
Legenda : Português

“Paranoid” – Um raro momento de lucidez lírica em Black Sabbath

Não estou aqui querendo fazer uma crítica à uma banda que, aliás, marcou meu melhores momentos de rebeldia. A banda, enquanto conjunto, é uma das melhores na playlist da minha existência e é inegável o fascínio que me causa o peso do som, underground, sombrio.

Fato é que, as letras nunca foram o forte do Black Sabbath. Soa meio forçadamente diabólico. A personalidade meio “sequelada” de Ozzy destoa da competência musical dos outros componentes. O contrabaixo marcado e pesado de Butler, a bateria hipnoticamente espancando os pratos de Bill Ward, e os clássicos rifes da guitarra de Tony Iommi em nada combinavam com o talento lírico de nosso vocalista (não discuto aqui seu talento enquanto vocalista, mas sim como letrista), que compunha coisas que mais parecem tiradas de um diálogo do Toninho do Diabo.

Bom… mas toda regra tem sua exceção: Na música Paranoid, Ozzy é simples, fala de seus sentimentos mais amargurados. Ozzy era um jovem amargurado, por isso, quando se propôs a falar disso de maneira descompromissada com o mal fez um ótimo trabalho. Tudo bem que isto foi até onde sua personalidade metaleira lhe permitiu. Aliás, não há no mundo ser mais fracassado e bobão que o metaleiro. Eu mesmo já fui um e posso dizer isto de camarote. Voltando as vacas frias, Paranoid é uma música que retrata de forma, mais ou menos superficial, uma alma vazia, sem esperança, sem nada. Camus dizia algo parecido com isso: Triste é quando alguém lhe pergunta “O que você tem?”, e você responde “Nada”, mas o pior mesmo é quando esta resposta é totalmente franca.

Isso não é coisa de metaleiro, mas vamos analisar alguns trechos

“Finished with my woman cuase she coldn’t help me with my mind”

Normal, homens e mulheres procuram preencher seus vazios no sexo oposto, melhor, no sexo (vai que não seja oposto).

“People think I’m insane because I’m frownig all the time”

Poisé. Minha mãe também pensa que meu caso é de psiquiatria. Minha avó, de exorcismo.

“All day long I think of things but nothing seems to satisfy
Think I’ll lose my mind if I don’t find something to pacify

Can you help me? Occupy my brain?”

Para um suicida em potencial, não encontrar algo pra acalmar pode tornar a expressão “perder a cabeça” (lose my mind) algo mais literal.

Uma pílula amarela ou LSD, cogumelo, ou mesmo uma trepadinha poderia ajudar a ocupar a mente. Nada mais que isso.

“I need someone to show me the things in life that I can’t find
I can’t see the things that make true happiness, I must be blind”

Não meu caro, você não está sozinho. Assim caminha a humanidade. Menos ainda estás cego, ao contrário, parece enxergar melhor que a maioria do ocidente.

“Make a joke and I will sigh and you will laugh and I will cry
Happiness I cannot feel like love to me is so unreal”

Imaginar a cena do primeiro verso me fez rir. Agora, amor? Felicidade? Isso é coisa de novela. E há muito parei de assistir.

“And so as you hear these words telling you now of my state
I tell you to enjoy life I wish I could but it’s too late”

Chave de ouro. Perfeito. Só posso concordar. Talvez as palavras mais lúcidas de Mr. Osbourne.

Abaixo segue o vídeo com legenda em português para os aficionados monolíngue.