O Estágio Zaratustra – Primeiro capítulo

 

 

Partindo de BH em voo para Porto Seguro. Até a chegada em Trancoso o jogo ainda não estaria valendo. Primeiro dia do estágio, chego em Trancoso. Nunca havia estado ali, mas sempre ouvi dizer que era um lugarejo, descoberto pelos hippies. É, faz muito tempo. Muita coisa deve ter mudado pois o lugar em nada se parecia com uma pequena vila onde eu pudesse acampar na praia. No outro dia descobriria que talvez até pudesse, mas quando cheguei já era fim de tarde e do mirante pude perceber que a praia não era assim tão próxima que eu pudesse sondar meu lote.

Olhei ao redor e estava em um lindo camping, cercado de árvores, belas construções ao longo de um largo e bem cuidado gramado que levava até uma bucólica igreja típica de vilarejo dos rincões brasileiros. Perfeito, se não fosse este o último remanescente daquela vila de pescadores de décadas atrás. E justamente por essa necessidade de preservação da memória cultural… Besteira… E pelo fato de ali estarem os estabelecimentos turísticos mais valorizados do local, o tal do Quadrado Burguês, jamais permitiriam que um forasteiro sem dinheiro pra gastar pernoitasse em menos de 2m² que sequer atrapalhariam a paisagem. Teria então de traçar o plano B.

Não demorou muito e saberia que os poucos pescadores que existiam ali na verdade pescavam outro tipo de peixe. O peixe fora d’água. No caso, eu mesmo. Branquelo, meio perdido, mochila nas costas, fui fisgado rapidinho. O Cabeça foi o primeiro personagem da viagem. Devia ter uns 16 anos, cheio de dente cariado. Veio me oferecer lugar pra ficar e já lancei logo a real de que minha grana era a mínima possível e deveria ser camping. Ele me levou um pouco mais afastado do centro turístico-burguês para o República Camarões onde ele me apresentou o segundo personagem, o Ricardo, vulgo Paulista. Bom camarada, gente boa, bom camping, recomendado para quem não tem muita grana. Fechei em 10 real pois estava na baixíssima temporada e porque pexinxei bastante. O contra fica pelo fato do local não dispor de cozinha ou fogão para os usuários que levam sua raçãozinha. Nesse dia tive que me virar com a cota de barra de proteína e cereal e preparar um leite em pó para o toddy e a tapioca do outro dia. Chuveiro também só frio, quer dizer, natural (como Ricardo fez questão de frizar). Pra mim tudo bem, já estava preparado para banhos de rio, mas não custava perguntar.

Instalado, missão cumprida, parti então para as prioridades seguintes: conseguir água potável e comida para o resto do dia. Como meu plano de gastar R$10 por dia já havia ido camping abaixo, o que eu gastasse com esta refeição já seria deduzido da grana do dia seguinte. Então já comecei a andar para o lado contrário do Quadrado Burguês em direção à periferia dos nativos. No caminho encontrei um Escola Estadual que funcionava nos três turnos. Pronto. Garanti meu suprimento de água nos bebedouros. Recarreguei o costas de camelo e fui andando. Parei num sacolão cavernoso, comprei 50 cents de banana. Vi uns abacates perdendo e perguntei quanto era. O veizin disse naquele sotaque gostoso:

– Rapáis! Isso tá bom pá cumê, não.
– Tá sim. Eu pego o canivete corto umas parte, coisa e tal.
– Tá bom! Pode levar então.

Assim ganhei uns abacates. Juntando a parte comestível não dava um. Mas na guerra é pior. A propósito, esta seria a frase motivacional que viria a dizer ainda por várias vezes. E realmente motiva, cara! Quando batia a saudade do conforto da minha vida urbana, miserável em outros sentidos, apenas me lembrava dos documentários de guerra do History ou do NatGeo onde os soldados tinham que marchar milhas e milhas de coturno, com pouca comida e muito equipamento e ainda tendo que se proteger das “falange do mal”, cagando no frio, mijando nas calças etc… Pronto. Já estava bem para prosseguir. Legal, frutinhas ingeridas, tá faltando o carboidrato. Como encontrá-lo pronto, comercializável e bem barato? Parei na primeira padaria e perguntei:

– Tem pão?
– Tem.
– Tem queijo?
– Não.
– Tem café?
– Não.
– Valeu, brigado.

Vixi, mano! Fechas as porta da padoca. Na segunda o mesmo.

– Tem pão?
– Tem.
– Tem queijo?
– Não.
– Tem café?
– Tem.
– Valeu, brigado

Aff! Baiano não come queijo? Na terceira eu iria encontrar o trio ou então comeria o que tivesse porque senão eu gastaria mais energia tentando encontrá-lo do que consumindo-o.

– Tem pão?
– Tem.
– Tem queijo?
– Mussarela.
– (Oh!) Tem café?
– Não.
– (Cacete!) Quanto é o pão com queijo?
– R$1,50
– E só o pão?
– R$0,25 (na padaria anterior era R$0,20)
– Me dá 5 fatias de mussarela, por favor (deu menos de R$1,00)

Voltei no bar do pão barato e do café com a mussarela e pedi a atendente (gostosíssima) pra partir o pão pra mim. Ela gentilmente se ofereceu pra passar um café novo. O lugar era na verdade mais parecido com um boteco. Sentei do lado de fora com meu banquete e empurrei 3 pães com mussarela com o auxílio do solicito café fresquinho. Total da refeição aproximadamente 2 real.

Dei um rolezinho na cidade, voltei ao quadradinho-burgo-turístico, agradável o lugar. Atrás da Igreja tem um mirante para a praia onde o mar encontra o firmamento, excelente para degustar um fuminho. Impossível até mesmo pra mim não admirar a beleza da composição sensorial daquele momento. É piegas pra caralho, clichê e o diabo, mas o barulho do mar, o luar dando a luz perfeita da cena, aliás, se eu dissera que na Bahia não tinha queijo me enganara. Ali estava ele, quer dizer, ela, a Lua quase cheia. Doidão de bagulho eu poderia ficar lá refletindo se aquela fotografia ao vivo era coisa de Deus, ou não, se era a gravidade, o buraco negro ou toda a física envolvida na coisa que fazia com que a Lua orbitasse assim, ou a Terra assado, tudo isso só tiraria a poesia daquela paisagem. Preferi a frieza do fato concreto que colocava a mim e a todo o resto em contato. E poucas vezes isto foi tão singelo quanto o romance. Curti aquele momento.

Fui caminhando lentamente para meu leito já montado e fiz um preparado de leite e toddy que levei. Tomei-o e, como todos que assim fazem antes de dormir, fui pra cama deitar cheio de medos, ansiedades, saudades e culpas. Mas nesse dia, pelo menos o sono logo veio.

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