O Estágio Zaratustra – Introdução

Tenho refletido, escrito, postado sobre os desencantos da existência. Dos elementos que mais constituem o cabedal teórico que tem me pautado aquele que merece destaque é o modo de vida urbano e suas implicações na construção de um homem sem valores reais. Para quem se contenta com a ignorância a reflexão parece sempre algo que se dilui no ar, caindo na superficialidade dos fatos, mas, para quem prefere a verdade, por menos agradável que seja, a coerência deve ser a busca.

Porém, qual a antítese daquilo que durante toda minha vida moldou meu avatar? Nasci e cresci numa metrópole e passeios eventuais pelos resquícios da vida natural não transformam vermes em homens. Criatura tão frágil é o ser-hurbano. Eu, por exemplo, até mesmo do serviço militar me esquivei. Não que obedecer a alguma hierarquia ou servir a pátria seja grande bosta, mas o fato é que imagino que seja uma experiencia enriquecedora por nos aproximar da dureza da vida. Seria o mais próximo que esta juventude urbana conseguiria chegar do conceito de maculinidade. Para os projetos de macho que são nossos rapazes da cidade, com sua parafernália eletrônica e toda sua pompa pseudo-cosmopolita-de-internet, seus músculos trabalhados na academia e seus joguinhos brutos típicos da explosão hormonal da puberdade. Longe de ser homofóbico, pelo contrário, acredito que existam muitos homossexuais que sejam machos, mas nossos garotos urbanos são verdadeiras bichas viadinhas, cheias de nojinho. Então, para nós, metropolitanos do sexo masculino, de classe média, com mais de 18 anos e que não “serviu exército”, perdemos a chance de chegar o mais próximo que poderíamos da noção de masculinidade. Todo esse rodeio fiz para ilustrar o ponto a que pretendo chegar. Se me digo descontente com o modo de vida urbano e suas implicações na construção do ser, devo negá-lo. Portanto, a princípio, tento vislumbrar o cenário alternativo, o inurbano.

Como então seria? Ou, onde e como poderia vivenciá-lo? Ora, se fosse formular uma teoria a respeito, aborreceria a muitos e a mim mesmo, mas esta teria como base algo sobre o qual já tratei aqui, a dissolução gradual do urbano até seu clímax onde as pessoas voltariam a viver em grupos reduzidos a um menor número possível de indivíduos, em tribos dissipadas por todo globo. A natureza então retornaria a condição de dominadora do homem ao mesmo tempo em que este reassumiria seu papel de dominado, dependente, subordinado. Esta é a salvação do homem enquanto espécie e em termos de evolução moral. (ver também Da (re)tribalização do homem)

Com isso desenvolvi o Projeto Zaratustra que consiste em formular um modo de vida alternativo viável que permeie minha teoria de coerência. Um experimento no qual também sou cobaia e onde busco à médio/longo prazo me estabelecer vivendo da maneira mais frugal, autossuficiente e o menos vinculado possível aos agrupamentos sociais maiores. Nos últimos 10 dias dei início a este projeto executando o “Estágio Zaratustra”. Nele procurei dar vazão ao meu selvagem reprimido vivendo em lugares distantes de zonas urbanas, carregando comigo uma mochila não mais pesada que 10 quilos comportando o essencial para sobreviver com menos de R$10,00 por dia. Relatarei nos próximos capítulos toda a experiencia, incluindo métodos e material utilizado, desenvolvimento do estágio, referências teóricas e relatório final de estágio.

Campo de estágio

Perímetro litorâneo que abrange o extremos sul do município de Porto Seguro/Ba ao distrito de Corumbau, em Prado/BA. Necessário partir de Porto Seguro com destino a Corumbau e retornar no período de 31/05 a 09/06 deste ano.

Material disponível

  • Capital
    • 01 nota de R$100,00
    • 01 nota de R$50,00 para utilização estritamente em caso de emergência
  • 01 Mochila Crampom 44 contendo (aprox. 10kg)
    • 01 Bivak
    • 01 saco de dormir
    • 01 isolante térmico (EVA 1,40/1,00m)
    • 01 costas de camelo (camel back) acoplável a Crampom 44 (capacidade 2l)
    • Higiene e proteção pessoal
      • 01 barra de sabão de coco
      • Pasta e escova de dente
      • Protetor solar
    • 08 peças de roupa
      • 02 pares de meias
      • 02 sungas
      • 02 bermudas
      • 02 camisetas de compressão manga longa
    • 01 lanterna
    • 01 panela de alumínio
    • kit talher Guepardo
    • Ração diária composta por
      • 10 barras de cereais
      • 10 barras de proteína
      • 250gr tapioca
      • 300gr leite em pó
      • 70gr lentilha
  • Objetos de uso pessoal
    • óculos escuros
    • isqueiro bic
    • canivete
    • palha e fumo de rolo
    • 15gr de bagulho

Preparação da mochila

Saco de dormir colocado em compartimento próprio devidamente embalado em saco de lixo preto, pois no caso de pegar chuva ou cair acidentalmente na água, ao menos poderia dormir relativamente seco. Embalei também objetos os quais não podem se molhar, tais como dinheiro, isqueiro, lanterna, bagulho e seda. Roupas socadas em um saco de nylon para que não fiquem soltas na mochila. Isto facilita muito na manipulação dos objetos, principalmente na hora de recarregar de água o “costas de camelo”, além de servir como travesseiro na hora de dormir. Carreguei poucos volumes no compartimento principal da Crampom 44 e dei preferência aos objetos macios para não pressionar o costas de camelo que é resistente, mas poderia se romper e vazar todo suprimento de água, molhando ainda tudo fora dos sacos plásticos.

Sabendo do meu orçamento previ que meu principal modo de deslocamento teria de ser o mais barato de todos: pernas. Tendo que caminhar a maior parte do percurso, distribui bem o peso na mochila e regulei-a para minhas medidas de modo a ficar confortável. Objetos mais pesados em cima, leves em baixo. Ração diária (comida) acondicionada em compartimento separado de todos os outros objetos. Roupas e costas de camelo no principal, cobertor (saco de dormir) no compartimento próprio, casa (Bivak) numa lateral externa, colchão (isolante térmico) na outra. Sem primeiros socorros, sem repelente, “sem menção honrosa, sem massagem/ A vida é loka, nêgo. E nela eu to de passagem.” (Mano Brown)

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