Hoje eu acordei meio Nietzsche

German philosopher Friedrich Nietzsche posing ...

German philosopher Friedrich Nietzsche posing at the time of his writing ‘Also sprach Zarathustra’. Español: Retrato del filósofo alemán Friedrich Nietzsche, alrededor del tiempo en que escibió su obra ‘Así habló Zaratustra’. (Photo credit: Wikipedia)

Sabe quando a gente acorda naqueles dias? Não, porra! Eu não menstruo, tá me estranhando? To falando de quando você desperta naquelas manhã em que pensa quanto gostaria de ter acordado duro e gelado? Eu sei. Até eu acho isso meio forte, mas é frequente. Talvez eu tenha mesmo problemas? Ainda acho que não. Alguém sabe do que estou falando? Bom… fodas! Hoje eu acordei meio Nietzsche (num tem uma parada assim no facebook?). Então se não absorveu ainda o estado de espírito, veja o documentário da BBC – Humano, demasiado humano. Aí abaixo.

Como sou metido a besta, vou tentar resenhar. Vou pular a introdução e os dados técnicos acerca do documentário (vide rodapé youtube). Direto ás análises filosóficas, vamos separar alguns temas.

“Toda verdade na fé é infalível. Ela cumpre o que o crente espera encontrar nela. Porém, não oferece a mínima base para estabelecer uma verdade objetiva. Aqui, os caminhos dos homens se dividem. Se queres alcançar a paz e a felicidade, então crês. Se queres ser um discípulo da verdade, então busca.” (Carta à irmã Elizabeth)

Talvez o mais importante, a crise da fé, a revelação das dores do mundo moderno. Creio que a partir da revolução que Darwin trouxe em sua teoria, o homem pensante, o “homem absurdo” (Camus, Albert) se põe diante do maior dilema de sua vida: Manter Deus vivo em seu coraçãozinho, ou, matar a Deus e viver com a culpa e o vazio do mundo alógico, absurdo, demasiadamente humano sem Ele. Este embaraço, matar ou não, imagine a cena, ponha-se no lugar de pilatos. Está em suas mãos. Lavá-las ou não? Puxa o gatilho na nuca do Cristo (os romanos foram mais brutais em suas técnicas de execução) ou faz como “o primeiro vida loka da história, […](que) aos 45 do 2º, arrependido/salvo e perdoado. É, Dimas, o bandido”? Em certo trecho o documentário chega a questionar até que ponto, para Nietzsche, determinar a morte do divino o condenou a própria loucura, tamanha a dor que se impõe por isso.

A verdade de Sileno:  “A melhor coisa é não ter nascido. A segunda melhor é morrer logo.” (O Nascimento da Tragédia)

Sinto que não tive uma juventude dura como a de Nietzsche, o que talvez lhe servisse de prerrogativa para sentimentos que  nos são comuns, mas agora parece claro. Ele foi uma criança feliz, depois só desgraça. Garoto míope, se desenvolveu em um tipo esquisitão. Lutou na guerra como médico, onde pegou altas doenças. Parecia buscar algum alento para prosseguir em “Vontade de Poder” (o que me soa mais como “querer não é poder”). Nesta tentativa, buscava superar-se através do autoconhecimento, como terapia, meio que antecedendo algo que Freud se aprofundaria mais tarde. Vislumbrou em Zaratustra algo que hippies e punks pretenderam falidamente apoiar 100 anos depois: abandonar o sistema e viver na montanha.

No meu caso, o papel de Caifás vestiria melhor que a de Pilatos. Minha relação com o divino, antes mesmo de Darwin, já seria problemática por um simples motivo: incompatibilidade de filosofias. Ora, Cristo veio para salvar a humanidade. Eu, quero que ela se exploda. Vou mais longe, eu diria que se nossas filosofias, mais que incompatíveis são opostas, então, por coerência, além de romper com o cristianismo deveria também tornar-me anti-cristo. Mas uma coisa me difere. Minha vontade de poder ser Zaratustra me parece palpável ainda.

Anúncios

6 Respostas para “Hoje eu acordei meio Nietzsche

  1. Acordou num bom (no sentido de forte e espirituoso) dia então, “Pilula Amarela”! rs

    Discussão muito interessante e igualmente polêmica essa sobre o anticristo de Nietzsche. Mas se tem uma coisa precisa que o filósofo alemão fez foi “exaltar a vida”. É exatamente por conta disso que ele se coloca como um anticristo, pois para ele a moral cristã (e judaica) são completas negações da vida (da vida como potência, como criação, como arte de si mesmo). Nega-se esta vida, nega-se a vivê-la por conta de uma incerta vida no futuro pós-morte terrena. Cristianismo é a religião dos fracos, dos escravos, que baseam suas existências não neles mesmos mas através de suas desgraças que creem serem provocadas por outros (os aristocratas?). Mas, é claro que às vezes para Afirmar a Vida é melhor morrer como sinal de virtude do que viver indignamente. Só que a morte para Nietzsche não se trata apenas da morte física do corpo, ela pode ser uma morte da alma, se morre mesmo se estando “vivo” para dar lugar e vida ao novo (o Zaratustra? Além-do-homem? Ubermensch?)

    Abs!

    • Fala Munhoz, sabia que comentaria esse. Cara, creio que pela sua admiração pelo camarada Nite, deva conhecer muito mais que eu. Por isso seus comentários são muito importantes.
      Mas permita-me, não entendo nele uma exaltação à vida, e sim uma necessidade de substituir a morte de Deus por outra coisa, torna-la menos maldita, mais suportável. É como ele diz “Deixei de ser pessimista nos piores anos da minha vida. O instinto de auto-restauração proibiu-me uma filosofia de pobreza e desalento”. Concordo. Se lhe são reveladas algumas verdades que lhe põe diante de uma escolha do tipo, renunciar a vida por negar o absurdo, ou aceitá-lo de maneira rebelde e se apoiar em algo para prosseguir. Todos os pensadores existencialistas, mais ou menos sombrios ou pessimistas, fizeram isso de alguma forma. Nenhum deles cometeu suicídio. Freud se apoiou em sua psicanálise, Camus na rebeldia (teórica), Shop nas artes, e, Nite… Na loucura talvez. Ou se esta não tivesse tirado sua sanidade, teria ele sido coerente o suficiente para abdicar da vida? Eu aposto que sim.
      Enfim, pouco sei da filosofia de Nite, to começando, a propósito, o documentário realmente diz que ele pegou algumas doenças na Guerra. Não cita qual. Realmente, analisando melhor deva ter sido a Franco-Prussiana. Eu quem me equivocou. Valeu pela consultoria. rsrs

  2. ps: o historiador chato dentro de mim pede uma última observação: o bigode não lutou na Primeira Guerra, já tinha morrido quando ela aconteceu. acredito que ele serviu o exército na Guerra Franco-Prussiana, mas também não tenho certeza.

  3. Pingback: Da (re)tribalização do homem. Um caminho para uma humanidade menos depressiva | pilulamarela

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s