Suicídio. Covardia ou opção de vida?

Albert Camus, importante filósofo francês do seculo passado já dizia que “Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. ” A questão de que se existe ou não um sentido em viver pautará a vida de um homem a partir do momento em que este se deparar com o dilema mor da existência. Para aquele que refletir um pouco mais profundamente se encontrará em um a bifurcação onde uma estrada leva à esperança, à crença de que por mais tortos pareçam os caminhos, algo funciona para que haja justiça, conforto. A outra estrada leva simplesmente a um final, sem arco-iris, nem cachoeiras ou bosques, simplesmente ao fim. À morte onde tudo vira nada. Onde ficaram pelo caminho Hitler e Madre Tereza de Calcutá.

Na interseção entre a verdade e a crença está o conhecimento, que são as crenças justificadas. Porém, esta interseção abrange um espaço cujo conteúdo é desconhecido pela própria ciência, mas que podem ser tomadas como verdade, pois podemos experimenta-las. Sobre o que existe ali, nem você ou eu podemos afirmar, somente especular, mas prefiro fazê-lo a partir daquilo que já é conhecido, experimentado.

Diagrama do conhecimento

Excluindo-se a verdade e sua interseção, o que nos resta é nada mais do que crença, fé. Para Camus, assim como para Freud, para o homem racional o mais coerente é rebelar-se, engolir seco, respirar fundo, e seguir as agruras do caminho sem esperança de um final feliz. O homem que se dá conta disso é o “Homem Absurdo”¹. Sua vida parece não se encaixar nessa realidade e, por muitas vezes, suas pernas, sua mente, o convencem que não faz sentido prosseguir simplesmente por não estar indo a lugar nenhum. Freud e Camus não tinham a quem culpar por suas amarguras e decidiram tomar uma postura de rebelar-se e ver no que dava.

Ao contrário, outros autores como C.S. Lewis (veja documentário “Deus em Questão”) optaram pelo caminho da esperança, mesmo que no caso de Lewis, ao final de sua vida, Deus servira como uma válvula de escape, um culpado “sádico e odioso”, segundo suas próprias palavras, a quem pudesse praguejar seus rancores.

Minha relação com Deus sempre foi conturbada. Avó católica, me forçou aos dogmas. Enquanto ia ao catecismo e via meus amigos soltando pipa, ficava me imaginando com uma tesoura cortando todas aquelas linhas. Conscientemente a minha revolta era contra Deus, mas não atrevia a admitir para mim mesmo por medo do castigo divino. Como disse Freud “somente uma criança para deixar se levar por algumas velas e incensos.”

Contei esta pequena história pois, apesar de ir amadurecendo e aos poucos me distanciando     do divino, o meu rompimento completo com Deus e posteriormente com o sobrenatural, o metafisico, se deu de forma banal se comparando a outros, influentes ou não, que só o fizeram perante uma situação de completa ausência do divino, como em guerras, tragédias, holocaustos, genocídios, escravidão, fome, doença, apocalipse, etc. No meu caso foi uma puta revolta por uma multa por andar sem capacete. Mais tarde posso voltar com detalhes a esta passagem de minha vida. O fato é que o tal rompimento, a mim, por ser tão fútil a revolta, me leva a acreditar que o motivo é muito mais racional do que emocional.

Bom, falei tudo isso para chegar aos seguintes pontos:

A vida não é mais facil para quem segue o caminho da esperança. Apenas lhe oferece um apoio a mais, uma fé em dias melhores;

Para o homem absurdo, o caminho sem sentido é o mais cruel, porém mais coerente. Para ele também há duas opções: ficar ou prosseguir teimosamente.

Por isso, não julgue um suicida de covarde. É apenas uma posição assumida, muito lógica até. Este pensamento começou em mim após a notícia de que uma mulher conhecida havia se enforcado. Surpreendentemente minha reação foi de admiração.

Veja este vídeo que segue sobre o tema. A médica que discursa sobre o tema, alem de bem gatinha parece ter propriedade no que fala.

nota1 Leia O Mito de Síssifo – Albert Camus; To mandando o link do livro na net mas comprem o de bolso, é baratinho.

ALBERT CAMUS EM PORTUGUÊS – PÁGINA DE DIVULGAÇÃO E ESTUDO DA OBRA DO ESCRITOR E FILÓSOFO ARGELINO ALBERT CAMUS.

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6 Respostas para “Suicídio. Covardia ou opção de vida?

  1. Pingback: Projeto Inteligente. Uma tentativa de ressuscitar a Deus? | pilulamarela

  2. Não acho o suicídio uma atitude covarde, pelo contrário, pode ser bem corajosa. Mas me parece que basear o suicídio no motivo de descobrir que “Deus não existe” ou que a vida não tem sentido é um ato de revolta desiludida por não conseguir aceitar a condição humana tal como ela é. Absurda! O que tem de mal nisso? Seria a vontade de ter “Deus” esse ato?

    A discussão é boa. Recomendo a leitura de Emil Cioran, se não conhece é o filósofo mais pessimista e “suicida” que conheci.

    Abs!

    • Realmente parece haver um salto entre o questionamento sobre a existência ou não de um Deus e impulso de renuncia de uma pobre alma. Parece.
      A primeira reação daquele que se vê órfão é talvez perder a esperança, a priori em uma justiça redentora. Depois ele vislumbra a possibilidade de um mundo sem ordem, sem porquês, absurdo. Daí você pode me perguntar se esta revolta suicida pode refletir uma vontade intrínseca de ter Deus. De certa forma sim. Nem que seja para servir de bode expiatório. Para personificar o carrasco, o culpado. “O pensamento místico nos familiarizou com esses preconceitos. São tão legítima quanto, afinal, qualquer outra atitude de espírito“.
      É dessa reflexão que deve surgir a questão: “Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. […] Raramente alguém se suicida por reflexão (embora a hipótese não se exclua). O que desencadeia a crise é quase sempre incontrolável.”
      Camus talvez tenha sido o filósofo que foi mais ao ponto: “O suicídio sempre foi tratado somente como um fenômeno social. Ao invés disso, aqui se trata, para começar, da relação entre o pensamento individual e o suicídio. […] Começar a pensar é começar a ser minado. […] É preciso seguir e compreender esse jogo mortal que arrasta a lucidez em face da existência à evasão para fora da luz.”
      Porém, tanto Camus, como em Nietzsche e em outros, acabam admitindo a segunda opção do homem absurdo. Após o primeiro impacto da orfandade, a constatação da absurdidade, vem um sentimento de liberdade, aliado a uma noção de responsabilidade que nos convence que talvez, a melhor saída seja assumir um papel rebelde. Ao invés de negar o absurdo, aceitá-lo e confrontá-lo, até o fim, como uma criança pirracenta. Mas até quando a rebeldia apascenta? Até quando a veia adolescente ainda vai pulsar?
      Agora, já havia ouvido falar do Cioran e até vi um vídeo dele ontem seguindo sua sugestão. Talvez ele mereça um post aqui. Creio seja ele o autor preferido dos góticos, não?

  3. Pingback: Da (re)tribalização do homem. Um caminho para uma humanidade menos depressiva | pilulamarela

  4. Olá.

    Bem, respondendo, de acordo com minha opinião, se é uma covardia: não acho covardia na maioria das vezes, apenas quando alguém depende do suicida para sobreviver, como um filho pequeno ou um pai, uma mãe, etc. com idade avançada precisando de cuidados especiais.

    Uma opção de vida? Sim, pode ser. Para mim é, e acredito que para muitos também é.

    Eu poderia estender um pouco mais minhas ideias, mas preferi ser mais exato e responder diretamente as questões. Se alguém quiser que eu as exponha, por favor responda meu comentário.

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