Suicídio: o adeus para (in) transcendência – Albert Camus escreveu que o suicídio era um “problema filosófico verdadeiramente sério”. Conheça a visão de pensadores como Emil Cioran, Santo Tomás de Aquino e Jean-Jacques Rousseau sobre esse tema tão delicado e controverso

Artigo bem didático para quem deseja sair com honra.

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Emil Cioran writer / Emil Cioran écrivain (Pas terrible, flemme de recommencer) (Photo credit: Wikipedia)

Filosofia | Suicídio: o adeus para (in) transcendência – Albert Camus escreveu que o suicídio era um “problema filosófico verdadeiramente sério”. Conheça a visão de pensadores como Emil Cioran, Santo Tomás de Aquino e Jean-Jacques Rousseau sobre esse tema tão delicado e controverso.

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Rabiscos.: O jeito certo de cometer suicídio.

POR JEUDI, DE RABISCOS EM NOVEMBRO 08, 2007

O jeito certo de cometer suicídio.

 

Eu fico pasma com as notícias que a gente costuma ler por aí, todo tipo delas. Tem cada coisa que acontece que mais parece piada inventada por um jornalista que não tinha mais sobre o que escrever, do que a pura realidade. Mas é a realidade. Esse mundo tá ficando cada vez mais doido (não sou só eu).

Mas enfim, não sei se vocês repararam, mas se matar tá na moda. Quer dizer, sempre esteve, mas por uma questão de ética, não se publica esse tipo de notícia em lugar nenhum, se matar é uma opção pessoal, a vida é sua, a morte também, e ninguém tem absolutamente nada com isso. Só que tem gente por aí que parece que tá se matando para chamar a atenção… não conseguem nem perder a própria vida de maneira discreta: tem que causar polêmica, receber os flashs, e virar estrelas (nem que sejam estrelas póstumas, como as estrelas – aquelas lá no céu, de verdade, que já morreram a zilhões de anos, mas só agora brilham).

 

Exemplo é o que não falta, como o caso daqueles adolescentes que morreram em acidente de carro, na Lagoa, quando saíram da boate, no ano passado (o motorista bebeu uma garrafa inteirinha de vodka e pegou o carro – depois não sabe porque morreu); como a perturbada que subiu no poste de alta-tensão e ficou dançando (ESSA FOI SENSACIONAL, não tive como não rir) e, por intervenção divina, não caiu (mas foi QUASE!); como o ladrão que pulou de uma ponte de 50 metros (CINQUENTA!!!) para FUGIR DA POLÍCIA e, ÓBVIO, bateu as botas; e, mais recentemente, aquele garoto de 17 anos que consumiu bebida alcóolica e tomou DEZ balas (comprimidos de ecstasy, não é bala juquinha não, por favor né) na Tribe, teve um troço e morreu (não quero voltar a discussão a respeito das raves não, todo mundo sabe muito bem o que eu penso – eu estava na rave e não morri!). PelamordeDeus, né, tá pedindo para morrer. Esse aí pelo menos foi bem sucedido, mas chamou tanta atenção que, graças ao irresponsável falecido, o local não vai receber mais eventos durante um bom tempo, além do circo todo que ele armou, né.

 

Outro dia, estava eu, feliz e contente, num ônibus lotado indo para a faculdade, passando pela ponte Rio-Niterói, ATRASADA, com um humor maravilhoso, eis que pego um grande engarrafamento, só para começar o dia bem. Motivo do engarrafamento: Uma mulher ameaçando se jogar do vão central. Nem sei se ela ainda esta viva para contar a história, mas, pelo tamanho do engarrafamento, ela enrolou tanto para pular que deve ter amarelado em cima da hora. Minha vontade, quando vi aquilo, era abrir a janela do ônibus e gritar: “PULA! PULA!” ou, quem sabe, ir pessoalmente lá dar um empurrãozinho a ela (literalmente).

 

Pensando nisso tudo, a amiga aqui resolveu dar uma ajuda aos problemáticos depressivos que não vêem mais a luz no fim do túnel e cogitam a possibilidade de suicídio, e criou o revolucionário MANUAL PARA O ALÉM. Simples e bem sucinto, ele é um conjunto de dicas que auxiliarão estas pessoas nesta hora tão trivial em suas vidas, de maneira rápida, prática, sem causar muita sujeita ou fofoca. Aqui vão algumas dicas:

 

1º passo: Decidir se matar.

A primeira coisa para cometer o suicídio é decidir se matar. Tenha motivos suficientes e convincentes para tal. Nada de “meu amor me deixou”, “fui demitido”, “minha vida não presta”, etc etc e etc. Seja original. Arranje um motivo pelo qual não valha MESMO a pena viver. E que seja um motivo interno, sem influencias externas pois, para desligar a máquina antes da hora, nada nem ninguém tem que meter o bedelho nesta história. Ela é sua com você mesmo. SUICÍDIO – retirar a própria vida; VOCÊ SE matar; auto-assassinato; entendeu?

 

Motivo escolhido, vamos ao próximo passo.

 

 

 

2º passo: Decidir COMO se matar.

Este é um passo muito importante. É seu último ato. O seuGrand finale. Então, que seja com estilo! E seja prático, não pense em fins muito caros, que façam muita sujeira, ou muito barulho.

CORTAR OS PULOS? NEM PENSAR! Isso é fichinha. É coisa de quem não quer morrer de verdade. Até porque, não funciona, a não ser que o corte seja bastante profundo e esteja em água corrente, para causar A hemorragia, saca? E além do mais, imagina sua mãe ter que limpar aquilo tudo? Descarte essa opção.

 

De maneira NENHUMA pule de prédios. Possivelmente você vai cair em cima de algo ou alguém, e vai dar o maior prejuízo a quem não tem nada a ver com sua vida (ou sua morte), além de traumatiza-las, assusta-las, e reunir um bando de curiosos em volta para ver seu corpo todo desfigurado. Até hoje não consigo entender como aquele garoto da UFRJ foi para UERJ pular do décimo segundo andar. Imagina, você na janela, conversando distraído, até que cai um corpo assim, bem na sua frente? Tá maluco! Seja sensato com a sua morte e com os outros que estão em volta. Pular de pontes, ou pedras, ou qualquer coisa que tenha água (ou nada) embaixo até é uma boa, se você não ficar enrolando. Nada de “eu vou pulaaaaaaaaaar hein” “Não me segura que eu puloooo!!!”, não.. chega de uma vez, grita “GERONIMOOOOOOO” no máximo, e vá com Deus. E seja rápido, se não você vai ficar com medo, e vai voltar ao passo 1.

 

Tomar remedinhos, produtinhos de limpeza.. arg, coisa de bicha! Se quiser ter overdose, aprenda com o moleque da rave: de 10 a 20 balas é perfeito. Mas faça isso dentro do seu quarto, de preferência, para não prejudicar a festa das outras 9.981 pessoas que estão lá para se DIVERTIR e não para se matar (descontei os 18 que passaram mal também). Com as químicas, você pode se sair mau sucedido e, no máximo, ir parar no hospital com uma puta intoxicação. Seja suicida porém inteligente.

 

Outra idéia estúpida é se tacar na frente de carros, ônibus, e adjacentes. Você pode ficar tretaplégico e não morrer. Cair de avião ou helicóptero também não é uma boa idéia. Não faça nada que alguém já tenha passado por isso e sobreviveu, é desanimador!

 

Enforque-se, caso tenha uma corda, tenha lugar para pendura-la, e SAIBA DAR AQUELE NÓ. Particularmente, eu não sei, nunca tentei, mas pelos filmes me parece ser MUITO complicado. Nozinho de sapato não serve não. Tem que ser um especial, e nisso não posso te ajudar.

 

Caso tenha uma arma, tiro na cabeça (ou na boca, pois explode o cérebro da mesma maneira, além de ser rápido). Só é meio barulhento, e não é todo mundo que tem uma 38 em casa, né. Mas eu considero o tiro a melhor maneira, junto com o veneno, igual Hitler fez.

 

Se você tiver acesso ao veneno, é uma boa. Mas tem que ser um veneno eficiente, de boa qualidade. Nem se importe se vai ser caro ou não, porque não vai ser você quem vai pagar seu próprio enterro e será seu ultimo investimento na vida. Se for veneninho de quinta categoria (como aqueles de rato, barata, ou armário da vovó), o que pode acontecer de mais grave com você é uma diarréia. Veneno bom é chiquérrimo! Grandes nomes da história e grandes personagens da literatura morreram assim (os da novela também. Imagina uma morte à lá Thais??? Produza-se linda(o) e bela(o), misture o veneno na sua bebida favorita, e pronto, não tem erro, fim da linha para você – e com muita classe, diga-se de passagem).

 

3º passo: Decidir QUANDO se matar.

Por favor, caro problemático, não venha fazer como a moça da ponte Rio-Niterói fez. Começo de semana, pela manhã, no único horário em que o trânsito fica consideravelmente bom, a mulher pára o transito para se matar, possivelmente por causa de um pé na bunda. Não faça isso JAMAIS! Os vivos e os que amam a vida ainda trabalham e estudam, pense neles! Escolha um horário propício, tipo, madrugada, ou o amanhecer. Escolha um lugar bonito ou especial, que você levaria com você por toda a eternidade. Faça do fim da sua vida, pelo menos, um pouquinho romântica, dramática, digna de cena de filme. Esteja calmo, e não se desespere, vai estragar a cena.

 

4º passo: Se despedir ou não se despedir? Deixar testamento ou não deixar testamento? Eis a questão..

Se você tem família, amigos, vizinhos, deixaria alguém triste ao saber da sua história ou com saudades ao saber que você partiu mais cedo, eu lhe aconselho a deixar sim algo escrito. Ou um presente. Ou qualquer coisa. Alguém se importa com você e, mesmo que você não se importe com ninguém, e não tenha herança boa para deixar no mundo, qualquer ultima palavrinha sua faria bem. Agora, se você não tem nada (nem para doar para caridade), nem ninguém, o outro lado te espera, vá logo e não enrola.

 

Agora é só respirar fundo, e ir com Deus (e que o diabo lhe carregue).

 

Mas minha última e mais importante dica é: há mil e umas maneiras de se matar infinitamente melhores do que todas essas idéias que dei aqui. Nada nunca está totalmente perdido, e nenhum motivo será suficiente para pensar em amarrar a corda no pescoço. Ao invés disso, morra de rir, morra de amores, morra de surpresa, se mate de trabalhar, mate o tempo, se afogue em lágrimas, se afogue na cachaça e na cerveja (durante uma noite só, tá, e vá de taxi – volte só se você lembrar), mate alguem de paixão e morra assim também, você não faz idéia do quanto é boa a vida depois dessas mortes. Este sim é o jeito certo de cometer suicídio. Morra pra essa vida que te daria motivos para pensar em morrer, que o paraíso que vem depois, quando se tem esperança, é muito bom. Você é uma espécie em extinção, portanto, não queira acelerar um processo que é inevitável, até porque, a gente mal nasce e já começa a morrer.

 

Agora ou depois, o fim de todo mundo é igual, seja a sete palmos do chão, seja virando pó (ou purpurina). E a vida é muito (MUITO mesmo) pra se resumir e acabar em uma rave, num pulo da ponte, ou numa insana escalada para dançar num poste de luz. Pensando bem… essa ultima até é uma boa, gostei da idéia, já que a mulher não morreu… eu posso também! (Não liguem o dia que aparecer no jornal: menina louca de 18 anos é resgatada pelos bombeiros – ui, delícia – dançando em cima de um poste de luz, na região metropolitana do estado do RJ.. ADOREI!)

Fonte: Rabiscos.: O jeito certo de cometer suicídio..

O Estágio Zaratustra. Trancoso-Rio dos Frades

Dia 01/07, amanheço em Trancoso depois de uma noite muito bem dormida se considerar que meu colchão era um pedaço fino de material sintético. O roteiro era passar a manhã preparando minha partida a pé para Itaporanga pela praia. Não me preocupava por não conhecer o caminho na prática, afinal já consultara de véspera o Google Terra e a coisa não parecia muito difícil já que estaria orientado sempre pelo barulho do mar a minha esquerda. Além disso, aquela paisagem litorânea não compunha exatamente uma exuberante mata atlântica. Então o mapa que tinha apenas na minha cabeça se assemelhava ao seguinte:

 Bom, como sempre, as coisas não são tão fáceis quanto desejamos que sejam. Detalhes virão mais tarde. Por agora, vamos nos ater à uma prioridade cabal e comum à todas as espécies, o alimento. Observando a vida animal percebemos que sua natureza é muito simples. Se resume em procurar comida ao mesmo tempo em que ele mesmo não se torne comida de outro. No intervalo em que não se ocupam disto podem ser encontrados dando vazão ao instinto animalesco de procurar um parceiro para procriação. Com uma proposta e um orçamento igualmente animal pude assim me reaproximar de minhas necessidades verdadeiras e resgatar o homem ligeiramente primitivo que ainda acredito carregar. E como um animal, logo ao acordar, tratava de perambular a procura de meu suprimento alimentar. É claro que não tinha a pretensão de me transformar de um ser-hurbano a um homem primata simplesmente pela vontade, da noite para o dia. Não é que eu gritasse “Gerônimo!!!” e um raio caísse do céu reduzindo minhas roupas a uma tanga de couro, me armando de uma lança de bambu com a qual cassasse como o maior dos bravos, mas minhas refeições deveriam ser as mais básicas e grátis possíveis. O cardápio não variaria muito. Um carboidrato associado a alguma proteína, normalmente pão com ovo, pão com queijo, tapioca com leite em pó. Daí cozinhava uma lentilha sempre que dava, comprava, colhia ou catava frutas, paçoca de troco, coisa e tal. Ainda havia a cota diária de barras de cereal e proteína e um pouco dinheiro que sobrava pra tentar fazer uma refeição mais substancial que não ultrapassasse R5,00 (difícil). Ou seja, grande parte do meu dia era dedicado a procurar comida.

Me sentia o verdadeiro Bear Grylls. Infelizmente não foi bem assimMinha intenção era iniciar naquele dia a união entre duas práticas: o deslocamento até outras terras mais longínquas esperando encontrar pelo caminho relativamente selvagem algumas poucas fontes de alimento. Ora, sou um ser onívoro e este fator de oportunismo me permitiria encontrar frutas pelo caminho, caranguejos, pequenos peixes presos nos corais, enfim, me sentia o verdadeiro Bear Grylls. Infelizmente não foi bem assim.

No início da tarde encontrei um restaurante self-service mais humilde onde montei um prato comedido mas substancioso. Coloquei apenas coisas que não pesam muito no prato, mas caprichei no feijão. Satisfeito, fui conhecer a praia e fazer a digestão antes da caminhada. Encontrei uma castanheira à alguns metros ao sul de frente pro mar onde a maré não chegava, perfeita para acampar de quebradinha e zarpar antes que alguém perceba. A ansiedade da partida era grande, queria logo colocar o pé na estrada e no meio da tarde levantei acampamento e fui. Cedo demais para quem acabara de almoçar em restaurante baiano e tarde demais para quem pretendia atravessar a barra do rio dos Frades antes de anoitecer. Mais tarde esta pressa se revelaria meus primeiros enganos da jornada.

Já nos primeiros quilômetros me desviei da estradinha a beira mar e caí em uma praia mais afastada mas cheia de nativo curtindo a tarde. Parei pra me informar com uns caras jogando baralho e quando contei meu objetivo eles não se mostraram muito otimista quanto ao cumprimento da missão. Quando olharam para aquele branquelo recém-chegado querendo tirar onda de aventureiro a primeira reação dos caras foi de explícita chacota. “Rapáis! Não é assim, não. Você não chega lá hoje”, disse um deles. Me decepcionei um pouco, mas ainda acreditava em mim, além do mais eu estava equipado para contratempos, barraca, alguma comida para preparar e água. Insisti. Sem tirar os olhos do jogo das cartas outro dispara: “À cavalo são 4 horas, você não conhece o caminho. Tem que atravessar o Frades na maré baixa. Desiste.” Um outro faz terror – “Outro dia um tubarão comeu uma mula lá na barra. Vai arriscar?” – Caralho! Tudo que eu precisava ouvir. Ou eu estava deveras subestimando as dificuldades ou aqueles homens estavam subestimando minha capacidade. Resolvi descobrir a resposta e sobre risos desdenhosos me virei e prossegui.

E tome areiãoEstava com um certo gás, otimista, motivado. Caminhar pela praia tem a vantagem de ser terreno plano, sem subidas e descidas, porém não é tão fácil assim. O piso fofo pode dificultar muito, mas se souber se servir da maré vazante, a areia próxima a arrebentação fica como uma pista. Claro que consultei as marés no período antes da viagem no site da marinha. No entanto sabia que deveria voltar à uma estrada uns 100m pra dentro do continente que era um areião em linha reta, o que me economizaria passos em detrimento do caminho praiano recortado. E assim o fiz. Era um caminho até agradável por vegetação de grande porte entre mim e a praia. Mesmo não vendo o mar, ouvia suas batidas ritmadas a esquerda, ora mais próxima, ora mais ao longe. O problema era que o sol se punha rapidamente e nada de rio dos Frades. Este era minha referência pois imaginava que deveria atravessá-lo em algum momento obrigatoriamente. Outro engano. A estrada para Itaporanga pega um caminho a sudoeste em um trecho bem anterior. Sem perceber, continuei reto. Me vi em uma situação onde não conseguiria cortar a mata no peito se quisesse retornar a praia e estava em um local pouco propício para montar acampamento, andando por uma restinga densa, repleta de animais rastejantes. Não podia vê-los propriamente ditos, mas os ouvia entre os arbustos e imaginava que ali era um local e horário preferido para cobras saírem à caça. Apertei o passo e inciei uma corrida contra a chegada da noite. E tome areião, e nada de rio dos Frades.

Já estava começando a sondar locais onde eu poderia voltar e colher lenha se necessário, quando de repente, atravessando uma pequena duna, me deparei com um oásis de coqueiros. Parece estória enfeitada, mas juro que não foi. Do alto da duna pude ver um campo de areia plano, cercado de coqueiros e castanheiras. A esquerda o encontro do mar com o rio Frades onde atracavam pequenas embarcações e ao sul, no fim do plano, seu leito calmo. Já era iniciozinho da noite, estava aquele claro, meio escuro, meia luz, a lua já havia dado as caras. Tudo lindo, mas a estória do tubarão na barra não me encorajou nem um pouco a passar para o outro lado naquele dia. Depois de 10km de paisagens desabitadas, mal pude acreditar que naquele lugar tão isolado haviam casas. Dois barracos de madeira, precariamente construídos. O primeiro que vi estava bem localizado num campo de areia e coqueiros. Chamei, não havia ninguém. Andei até o segundo, às margens do rio. Não parecia haver ninguém. Caramba! Isso poderia ser bom ou ruim. Poderia acampar ali e acordar no outro dia sem ser molestado, o que seria bom, ou, poderia acampar e tarde da noite, aparecer sabe-se lá quem que moraria ali e no melhor das hipóteses acharia estranho chegar e do nada ver uma barraca armada em seu quintal. Levantei acampamento na frente da primeira casa e fui colher lenha para a fogueira. A esta altura tinha água suficiente apenas para cozinhar lentilha, fazer leite, e beber o mínimo. Poderia também ferver a água do rio se a sede ficasse crítica. Agilizei tudo e, cansado pra caralho, dei uma deitada na barraca para descansar um pouco antes de cozinhar. Quase dormindo, escuto um “Aoooow”. Abri a barraca e tinha um jovem senhor sentando num toco perto dali. Eu disse:

– Opa. To invadindo seu espaço aqui – contei toda a saga até ali.

– Te vi na beira. Depois você voltou e eu vim aqui ver se era gente esquisita. Essa é a casa de um amigo. Ele saiu pra pescar. Eu moro na da frente. Mas pode ficar. Ele é gente boa.

– Sou SamWell de Belo Horizonte. Qual seu nome?

– Marquinhos (se não me engano). Me chamam de “Pito”. Minha mulher foi pra BH. Ela estava injuriada de morar aqui, sem energia elétrica, vivendo assim. Uma amiga dela levou pra trabalhar lá. Acho que ela não volta.

– Pois eu to pensando em fazer o contrário. Sair de lá e procurar algum lugar pra viver mais próximo disto aqui.

Cozinha dos anfitriões

Muito solicitamente ele me levou para o “fogãozinho” deles e já foi acendendo a lenha arrumada entre dois tijolos para que eu pudesse preparar minha janta. Lentilha demora, conversamos fiado um pouco, ele saiu pra pescar não sei o que, aproveitando a maré. Continuei e enquanto aguardei a refeição noturna ficar pronta meu corpo pode esfriar da caminhada e dar lugar a uma tremenda dor de barriga. Que era isso? Cara, doía que pareciam ter dado um nó no meu intestino. Não consegui comer. Deitei e não consegui dormir. Fiquei imaginando o que havia causado aquilo. Imagino que seja a junção fatal de tempero baiano com caminhada antes de uma digestão bem feita. Não teve jeito. Tive que forçar o “hugo”. Vomitei uma, melhorou um pouco. Vomitei outra, acho que resolveu. Fui deitar de novo. Ufa! Melhorou. Dormi um pouco e acordei com uma sede incrível. Costas de camelo vazio. Tentei dormir mas a sede era tamanha, que só conseguia pensar no suco natural de maracujá que havia deixado na geladeira em BH. Levantei, peguei a lanterna e fui procurar coco no chão. Descobri que os stacks da Bivak são ótimos instrumentos para abrir a iguaria tropical, bastava perfurá-lo. O lance era encontrar coco com água boa. Na verdade, naquele momento bastaria ter água. Não obtive sucesso. Estava literalmente desesperado de sede, pensei em ir no rio e pegar água, mas ali, do lado da casa, tinha uns tambores plásticos com água. Investiguei alguns deles e não parecia muito animadora a qualidade da água. Um tambor azul continha uma água que pela aparência tive certeza ser água de chuva. Era totalmente incolor, não havia cheiro. Provei, gosto de água boa. Iluminei com a lanterna e, apesar de vários insetos voadores que tiveram a má sorte de se lançarem no tambor, não pude notar larvas ou coisas vivas nadando. Não tive dúvidas e me lembrei dos episódios de  A Prova de Tudo (Man vs. Wild). Peguei a água numa panela, a meia que havia usado no trajeto, coloquei-a entre minha boca e a borda da vasilha e bebi. Bebi, bebi e bebi. Que água deliciosa. Néctar dos Deuses. Pude assim dormir e me preparar para o próximo capítulo.

(Fonte das fotos http://www.trancosobrasil.com.br)

O Estágio Zaratustra – Primeiro capítulo

 

 

Partindo de BH em voo para Porto Seguro. Até a chegada em Trancoso o jogo ainda não estaria valendo. Primeiro dia do estágio, chego em Trancoso. Nunca havia estado ali, mas sempre ouvi dizer que era um lugarejo, descoberto pelos hippies. É, faz muito tempo. Muita coisa deve ter mudado pois o lugar em nada se parecia com uma pequena vila onde eu pudesse acampar na praia. No outro dia descobriria que talvez até pudesse, mas quando cheguei já era fim de tarde e do mirante pude perceber que a praia não era assim tão próxima que eu pudesse sondar meu lote.

Olhei ao redor e estava em um lindo camping, cercado de árvores, belas construções ao longo de um largo e bem cuidado gramado que levava até uma bucólica igreja típica de vilarejo dos rincões brasileiros. Perfeito, se não fosse este o último remanescente daquela vila de pescadores de décadas atrás. E justamente por essa necessidade de preservação da memória cultural… Besteira… E pelo fato de ali estarem os estabelecimentos turísticos mais valorizados do local, o tal do Quadrado Burguês, jamais permitiriam que um forasteiro sem dinheiro pra gastar pernoitasse em menos de 2m² que sequer atrapalhariam a paisagem. Teria então de traçar o plano B.

Não demorou muito e saberia que os poucos pescadores que existiam ali na verdade pescavam outro tipo de peixe. O peixe fora d’água. No caso, eu mesmo. Branquelo, meio perdido, mochila nas costas, fui fisgado rapidinho. O Cabeça foi o primeiro personagem da viagem. Devia ter uns 16 anos, cheio de dente cariado. Veio me oferecer lugar pra ficar e já lancei logo a real de que minha grana era a mínima possível e deveria ser camping. Ele me levou um pouco mais afastado do centro turístico-burguês para o República Camarões onde ele me apresentou o segundo personagem, o Ricardo, vulgo Paulista. Bom camarada, gente boa, bom camping, recomendado para quem não tem muita grana. Fechei em 10 real pois estava na baixíssima temporada e porque pexinxei bastante. O contra fica pelo fato do local não dispor de cozinha ou fogão para os usuários que levam sua raçãozinha. Nesse dia tive que me virar com a cota de barra de proteína e cereal e preparar um leite em pó para o toddy e a tapioca do outro dia. Chuveiro também só frio, quer dizer, natural (como Ricardo fez questão de frizar). Pra mim tudo bem, já estava preparado para banhos de rio, mas não custava perguntar.

Instalado, missão cumprida, parti então para as prioridades seguintes: conseguir água potável e comida para o resto do dia. Como meu plano de gastar R$10 por dia já havia ido camping abaixo, o que eu gastasse com esta refeição já seria deduzido da grana do dia seguinte. Então já comecei a andar para o lado contrário do Quadrado Burguês em direção à periferia dos nativos. No caminho encontrei um Escola Estadual que funcionava nos três turnos. Pronto. Garanti meu suprimento de água nos bebedouros. Recarreguei o costas de camelo e fui andando. Parei num sacolão cavernoso, comprei 50 cents de banana. Vi uns abacates perdendo e perguntei quanto era. O veizin disse naquele sotaque gostoso:

– Rapáis! Isso tá bom pá cumê, não.
– Tá sim. Eu pego o canivete corto umas parte, coisa e tal.
– Tá bom! Pode levar então.

Assim ganhei uns abacates. Juntando a parte comestível não dava um. Mas na guerra é pior. A propósito, esta seria a frase motivacional que viria a dizer ainda por várias vezes. E realmente motiva, cara! Quando batia a saudade do conforto da minha vida urbana, miserável em outros sentidos, apenas me lembrava dos documentários de guerra do History ou do NatGeo onde os soldados tinham que marchar milhas e milhas de coturno, com pouca comida e muito equipamento e ainda tendo que se proteger das “falange do mal”, cagando no frio, mijando nas calças etc… Pronto. Já estava bem para prosseguir. Legal, frutinhas ingeridas, tá faltando o carboidrato. Como encontrá-lo pronto, comercializável e bem barato? Parei na primeira padaria e perguntei:

– Tem pão?
– Tem.
– Tem queijo?
– Não.
– Tem café?
– Não.
– Valeu, brigado.

Vixi, mano! Fechas as porta da padoca. Na segunda o mesmo.

– Tem pão?
– Tem.
– Tem queijo?
– Não.
– Tem café?
– Tem.
– Valeu, brigado

Aff! Baiano não come queijo? Na terceira eu iria encontrar o trio ou então comeria o que tivesse porque senão eu gastaria mais energia tentando encontrá-lo do que consumindo-o.

– Tem pão?
– Tem.
– Tem queijo?
– Mussarela.
– (Oh!) Tem café?
– Não.
– (Cacete!) Quanto é o pão com queijo?
– R$1,50
– E só o pão?
– R$0,25 (na padaria anterior era R$0,20)
– Me dá 5 fatias de mussarela, por favor (deu menos de R$1,00)

Voltei no bar do pão barato e do café com a mussarela e pedi a atendente (gostosíssima) pra partir o pão pra mim. Ela gentilmente se ofereceu pra passar um café novo. O lugar era na verdade mais parecido com um boteco. Sentei do lado de fora com meu banquete e empurrei 3 pães com mussarela com o auxílio do solicito café fresquinho. Total da refeição aproximadamente 2 real.

Dei um rolezinho na cidade, voltei ao quadradinho-burgo-turístico, agradável o lugar. Atrás da Igreja tem um mirante para a praia onde o mar encontra o firmamento, excelente para degustar um fuminho. Impossível até mesmo pra mim não admirar a beleza da composição sensorial daquele momento. É piegas pra caralho, clichê e o diabo, mas o barulho do mar, o luar dando a luz perfeita da cena, aliás, se eu dissera que na Bahia não tinha queijo me enganara. Ali estava ele, quer dizer, ela, a Lua quase cheia. Doidão de bagulho eu poderia ficar lá refletindo se aquela fotografia ao vivo era coisa de Deus, ou não, se era a gravidade, o buraco negro ou toda a física envolvida na coisa que fazia com que a Lua orbitasse assim, ou a Terra assado, tudo isso só tiraria a poesia daquela paisagem. Preferi a frieza do fato concreto que colocava a mim e a todo o resto em contato. E poucas vezes isto foi tão singelo quanto o romance. Curti aquele momento.

Fui caminhando lentamente para meu leito já montado e fiz um preparado de leite e toddy que levei. Tomei-o e, como todos que assim fazem antes de dormir, fui pra cama deitar cheio de medos, ansiedades, saudades e culpas. Mas nesse dia, pelo menos o sono logo veio.

O Estágio Zaratustra – Introdução

Tenho refletido, escrito, postado sobre os desencantos da existência. Dos elementos que mais constituem o cabedal teórico que tem me pautado aquele que merece destaque é o modo de vida urbano e suas implicações na construção de um homem sem valores reais. Para quem se contenta com a ignorância a reflexão parece sempre algo que se dilui no ar, caindo na superficialidade dos fatos, mas, para quem prefere a verdade, por menos agradável que seja, a coerência deve ser a busca.

Porém, qual a antítese daquilo que durante toda minha vida moldou meu avatar? Nasci e cresci numa metrópole e passeios eventuais pelos resquícios da vida natural não transformam vermes em homens. Criatura tão frágil é o ser-hurbano. Eu, por exemplo, até mesmo do serviço militar me esquivei. Não que obedecer a alguma hierarquia ou servir a pátria seja grande bosta, mas o fato é que imagino que seja uma experiencia enriquecedora por nos aproximar da dureza da vida. Seria o mais próximo que esta juventude urbana conseguiria chegar do conceito de maculinidade. Para os projetos de macho que são nossos rapazes da cidade, com sua parafernália eletrônica e toda sua pompa pseudo-cosmopolita-de-internet, seus músculos trabalhados na academia e seus joguinhos brutos típicos da explosão hormonal da puberdade. Longe de ser homofóbico, pelo contrário, acredito que existam muitos homossexuais que sejam machos, mas nossos garotos urbanos são verdadeiras bichas viadinhas, cheias de nojinho. Então, para nós, metropolitanos do sexo masculino, de classe média, com mais de 18 anos e que não “serviu exército”, perdemos a chance de chegar o mais próximo que poderíamos da noção de masculinidade. Todo esse rodeio fiz para ilustrar o ponto a que pretendo chegar. Se me digo descontente com o modo de vida urbano e suas implicações na construção do ser, devo negá-lo. Portanto, a princípio, tento vislumbrar o cenário alternativo, o inurbano.

Como então seria? Ou, onde e como poderia vivenciá-lo? Ora, se fosse formular uma teoria a respeito, aborreceria a muitos e a mim mesmo, mas esta teria como base algo sobre o qual já tratei aqui, a dissolução gradual do urbano até seu clímax onde as pessoas voltariam a viver em grupos reduzidos a um menor número possível de indivíduos, em tribos dissipadas por todo globo. A natureza então retornaria a condição de dominadora do homem ao mesmo tempo em que este reassumiria seu papel de dominado, dependente, subordinado. Esta é a salvação do homem enquanto espécie e em termos de evolução moral. (ver também Da (re)tribalização do homem)

Com isso desenvolvi o Projeto Zaratustra que consiste em formular um modo de vida alternativo viável que permeie minha teoria de coerência. Um experimento no qual também sou cobaia e onde busco à médio/longo prazo me estabelecer vivendo da maneira mais frugal, autossuficiente e o menos vinculado possível aos agrupamentos sociais maiores. Nos últimos 10 dias dei início a este projeto executando o “Estágio Zaratustra”. Nele procurei dar vazão ao meu selvagem reprimido vivendo em lugares distantes de zonas urbanas, carregando comigo uma mochila não mais pesada que 10 quilos comportando o essencial para sobreviver com menos de R$10,00 por dia. Relatarei nos próximos capítulos toda a experiencia, incluindo métodos e material utilizado, desenvolvimento do estágio, referências teóricas e relatório final de estágio.

Campo de estágio

Perímetro litorâneo que abrange o extremos sul do município de Porto Seguro/Ba ao distrito de Corumbau, em Prado/BA. Necessário partir de Porto Seguro com destino a Corumbau e retornar no período de 31/05 a 09/06 deste ano.

Material disponível

  • Capital
    • 01 nota de R$100,00
    • 01 nota de R$50,00 para utilização estritamente em caso de emergência
  • 01 Mochila Crampom 44 contendo (aprox. 10kg)
    • 01 Bivak
    • 01 saco de dormir
    • 01 isolante térmico (EVA 1,40/1,00m)
    • 01 costas de camelo (camel back) acoplável a Crampom 44 (capacidade 2l)
    • Higiene e proteção pessoal
      • 01 barra de sabão de coco
      • Pasta e escova de dente
      • Protetor solar
    • 08 peças de roupa
      • 02 pares de meias
      • 02 sungas
      • 02 bermudas
      • 02 camisetas de compressão manga longa
    • 01 lanterna
    • 01 panela de alumínio
    • kit talher Guepardo
    • Ração diária composta por
      • 10 barras de cereais
      • 10 barras de proteína
      • 250gr tapioca
      • 300gr leite em pó
      • 70gr lentilha
  • Objetos de uso pessoal
    • óculos escuros
    • isqueiro bic
    • canivete
    • palha e fumo de rolo
    • 15gr de bagulho

Preparação da mochila

Saco de dormir colocado em compartimento próprio devidamente embalado em saco de lixo preto, pois no caso de pegar chuva ou cair acidentalmente na água, ao menos poderia dormir relativamente seco. Embalei também objetos os quais não podem se molhar, tais como dinheiro, isqueiro, lanterna, bagulho e seda. Roupas socadas em um saco de nylon para que não fiquem soltas na mochila. Isto facilita muito na manipulação dos objetos, principalmente na hora de recarregar de água o “costas de camelo”, além de servir como travesseiro na hora de dormir. Carreguei poucos volumes no compartimento principal da Crampom 44 e dei preferência aos objetos macios para não pressionar o costas de camelo que é resistente, mas poderia se romper e vazar todo suprimento de água, molhando ainda tudo fora dos sacos plásticos.

Sabendo do meu orçamento previ que meu principal modo de deslocamento teria de ser o mais barato de todos: pernas. Tendo que caminhar a maior parte do percurso, distribui bem o peso na mochila e regulei-a para minhas medidas de modo a ficar confortável. Objetos mais pesados em cima, leves em baixo. Ração diária (comida) acondicionada em compartimento separado de todos os outros objetos. Roupas e costas de camelo no principal, cobertor (saco de dormir) no compartimento próprio, casa (Bivak) numa lateral externa, colchão (isolante térmico) na outra. Sem primeiros socorros, sem repelente, “sem menção honrosa, sem massagem/ A vida é loka, nêgo. E nela eu to de passagem.” (Mano Brown)

CRASS “Não há autoridade a não ser você mesmo” – Anarquia além do discurso punk-meia-sola

“E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo[…]”

… então, CRASS é um modelo de coerência entre discurso e ação. Não se trata de uma banda, mas de uma ideologia que se tornou maior do que sua música. Este post não trata de punks pregando o anarquismo, mas sim de anarquistas meramente punks.

Crass logo

Crass logo (Photo credit: Leo Reynolds)

Venho neste blog tentando traçar uma linha filosófica ao mesmo tempo em que a construo como meus próprios ideais. Até aqui me entendo como um cinico-anarcoindividualista-agnóstico. Sequer gosto de punk, nem enquanto cena musical, nem enquanto movimento, menos ainda me identifico e/ou acredito na juventude que assim se declara. Afinal, onde estão os Titãs dos 80’s? Por isso insisto em separar punk e anarquismo. Este ultimo surgiu muito antes, na Antiga Grécia, vestida de coerência na figura de Diógenes de Sinope.

Ainda sou um pássaro cativo em uma gaiola aberta. Sei que posso sair, mas ainda não devo. Segue então o documentário sobre pessoas que vivenciaram e vivenciam sua filosofia de vida. Me fez pensar que se eu fosse o messias retornado, não pregaria o AMOR incondicional ao próximo. É utopia. Não é da natureza humana. O primeiro mandamento deveria tratar de RESPEITO. O respeito é mais real, mais tangível e mais redentor que o amor. Sendo assim… fiquem com o vídeo, ou se preferir ter gravado (recomendado), pode também baixar o torrent.

Título original : There is no authority but yourself.
Duração : 64 minutos
Ano da produção : 2006
Direção,câmera e edição : Alexander Oey.
Legenda : Português

Da (re)tribalização do homem. Um caminho para uma humanidade menos depressiva

Study for a caipira's head

Study for a caipira’s head (Photo credit: Wikipedia)

A onça é um animal emblemático. Há toda uma mitologia em torno dela em quase todas as regiões do Brasil. Um folclore rico presente principalmente no homem da terra, do caipira, caboclo, vaqueiro, pantaneiro. Também pudera. A história de nosso país tem pouco mais de 500 anos. No entanto, por aqui, essa relação entre o natural, o animal (onça) e o racional (homem) vem de muitos séculos antes, desde as sociedades indígenas. Por mais extenso que sejam os produtos psíquicos desta interação há um lugar de destaque que se caracteriza quase sempre (exceto no caso dos boçais caçadores) por uma imagem repleta de respeito entre onça e homem, bicho e gente.

O mundo natural me fascina. O problema, e o que muito me entristece enquanto ser-hurbano, é que tratamos até aqui de dois personagens em alto risco de extinção: a onça e o caipira. Assim como seu habitat, a floresta atlântica (tropical), que ocupava até menos de um século a maior parte do território brasileiro.  O Brasil mesmo era um país agrário até meados do século passado. Mas incorreu em assumir um certo lugar nesta nova desordem mundial. O progresso que nos levaria ao pretenso posto de país do futuro nos impõe um novo modo de vida. Novo para nós. Tio Sam, aconselhado por Ford, já reivindicara a patente do American Way of Life décadas antesE agora se “enquadrar” à um pensamento único parece ser um ato compulsório. Olhem para nossas famílias de agricultores, massacrados pelo modelo latifundiário que serve essencialmente à vorássia alimentar do velho-mundo burguês e, com suas sobras,  à nova classe média das colônias emergentes. “Tigres asiáticos”? Que tigres? Onde estão os tigres? Nos documentários sobre a vida natural. Seria então necessário que o caipira tivesse novas necessidades além de sua vidinha rural. Ele precisava agora de uma coisa muito maior. Precisava desejar. Desejar o que? Mercadoria. Aliás, nada mais oportuno que convence-lo disso lhe oferecendo um lindo tapete… de onça.

Gostaria de falar mais da onça. As onças-pintadas são solitárias e só buscam a companhia de um par durante a época de acasalamento. Cumprem seu papel animal e tchau. À nós, do alto de nosso especismo, seria mais digno abdicar da obrigação instintiva da reprodução antes de nos considerarmos mais inteligentes entre os seres. Em geral nascem, no interior de uma toca, dois filhotes – inicialmente com os olhos fechados. Ao final de duas semanas abrem os olhos e só depois de dois meses saem da toca. Quando atingem de 1,5 a 2 anos, separam-se da reprodutora, tornando-se sexualmente maduros e podendo se reproduzirem.

Assim é o mundo para um animal e até aqui não vejo motivos para mirar no exemplo do homem em detrimento da onça. Neste caso específico, como seria este filme da separação entre a Mãe e o filhote? Imagino que para alguns seja um processo natural, emancipatório, menos traumático. Já para outros, um rompimento mais duro. Se havia caça, graças a Mamãe. Se a sorte da sagaz caçadora não estivesse consigo e a caça não fosse farta era porque assim fez a Mamãe. Para a jovem onça, recém orfã da Mãe Protetora à quem culpar pelas caças mal sucedidas? Pelos dias de fome? Pelos dias de solidão sem nem um parceiro para acasalar? Assim é o homem absurdo desmamado de Deus. Por outro lado, descobre também que está livre. Agora é livre e só. Fazer o que com isso? Mas a onça é só um animal, não se questiona a respeito. Apenas vive um dia de cada vez. Exatamente o que a difere do homem. Para o homem, de que serve a liberdade repleta de solidão? O que fazer com estas dois valores que deve carregar àquele homem por quem buscou Diógenes com sua lanterna.

Este artigo foi inspirado em um questionamento feito por Munhoz em outro post. Pois bem, acho que a partir daqui a história da onça vai fazer mais sentido.

Realmente parece haver um salto entre o questionamento sobre a existência ou não de um Deus e impulso de renuncia de uma pobre alma. Parece.

A primeira reação daquele que se vê órfão é talvez perder a esperança, a priori em uma justiça redentora. Depois ele vislumbra a possibilidade de um mundo sem ordem, sem porquês, absurdo. Daí você pode me perguntar se esta revolta suicida pode refletir uma vontade intrínseca de ter Deus. De certa forma sim. Nem que seja para servir de bode expiatório. Para personificar o carrasco, o culpado.

O pensamento místico nos familiarizou com esses preconceitos. São tão legítima quanto, afinal, qualquer outra atitude de espírito“.

É dessa reflexão que deve surgir a questão:

“Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. […] Raramente alguém se suicida por reflexão (embora a hipótese não se exclua). O que desencadeia a crise é quase sempre incontrolável.”

Camus talvez tenha sido o filósofo que foi mais ao ponto:

“O suicídio sempre foi tratado somente como um fenômeno social. Ao invés disso, aqui se trata, para começar, da relação entre o pensamento individual e o suicídio. […] Começar a pensar é começar a ser minado. […] É preciso seguir e compreender esse jogo mortal que arrasta a lucidez em face da existência à evasão para fora da luz.”

Porém, tanto Camus, como em Nietzsche e em outros, acabam admitindo a segunda opção do homem absurdo. Após o primeiro impacto da orfandade, a constatação da absurdidade, vem um sentimento de liberdade, aliado a uma noção de responsabilidade que nos convence que talvez, a melhor saída seja assumir um papel rebelde. Ao invés de negar o absurdo, aceitá-lo e confrontá-lo, até o fim, como uma criança pirracenta. Mas até quando a rebeldia apascenta? Até quando a veia adolescente ainda vai pulsar?

Fechando então este círculo que começou com o folclore da onça, do caipira e suas passagens a ser-hurbano, posto um vídeo que tem a ver com uma postura filosófica que adotei. O homem moderno deve retornar ao caipira, se permitir aventuras com o ser mitológico da onça. O que digo não é algum tipo de alegoria, ao contrário, deve ser bem mais radical. Devemos matar o urbano. Em outro post eu disse querer explodir a humanidade. Sendo menos literal gostaria de esclarecer sobre isto. Devemos fazer uma busca diária a um retorno ao rural, em uma primeira fase. Mas ainda teríamos muitos sistemas nos controlando. Os rompimentos seguintes devem atingir diretamente as instituições Estado e território, para que depois possamos (re)ultrapassá-la, nos voltando a sociedades menores, algo parecido com as sociedades indígenas pré-descobrimento. É bicho, não é ideia de anarco-punk meia sola. Tem anarquismo sim, niilismo, anti-socialismo, simplismo, zaratustrismo, cinismo… “Você ta na pista” como diria Raul. Eu chamo essa teoria de Retribalização do homem.

Sobre o vídeo é grande, mas a fala de Maria Rita Kehl vai até 50min e o tema é Aceleração e Depressão. É uma teoria que já tinha comigo sobre um estado depressivo natural da sociedade moderna, mas aqui está exposto maravilhosamente bem.